30 maio, 2012

AMOR DEMAIS


Roberto estava absorto em seus pensamentos quando viu Marco, em um bar, do outro lado da rua.
Resolveu ir ter com o amigo.

- Marco?
- Roberto?! Ô, rapaz, finalmente alguém pr’eu conversar! Senta aí, amigo.
- O que aconteceu?
- Nem te conto... ‘Tou completamente apaixonado... Pela Rosa.

Roberto parecia não saber o que deveria dizer, então, a primeira reação foi levantar a mão e pedir duas doses ao garçom.
Depois, sentenciou:

- É, rapaz, coisas do coração... – tentou dar alguma profundidade a essa frase.
- O pior é qu’eu penso nela todo instante!! E o nome dela parece um sino badalando na minha cabeça: “Bianca, Bianca, Bianca...”
- Ô, mas não era “Rosa”? – perguntou confuso.
- Quê?! ‘Tá louco, homem?! Bianca é a mulher da minha vida!
- Hum. – Roberto já não sabia o que dizer.
- Sei não, mas... Acredito que fomos feitos um para o outro!
- Hum.
- Quando eu vi a Natália a primeira vez.
- Mas. – interrompeu – E a Bianca?!
- ‘Cê ‘tá prestando atenção em alguma coisa qu’eu ‘tou dizendo?! ‘Tou falando de amor à primeira vista, meu caro! Ah, Natália! – suspirou.
- Hum. – Roberto se perguntava se aquela conversa ‘tava mesmo acontecendo.
O garçom ainda nem tinha trazido sua bebida e ele achava que já deveria parar.
- E você, já amou alguém de verdade, Roberto?
- Bem...

Mas Roberto foi interrompido pelo garçom, “Licença, as bebidas”.
Marco agarrou seu copo.

- Vamos brindar ao amor, meu querido amigo! – ergueu seu copo. - E às mulheres de nossas vidas. À minha Berenice! E à sua...?
- Peraí, Marco! – protestou Roberto com seu copo erguido. - Isso é alguma brincadeira? – perguntou sem esconder a irritação.
- O que, rapaz?! ‘Cê não tem a quem brindar? Desculpe a minha insensibilidade. É que o amor me deixa assim... Sentimental demais. E só quero falar nela: “Ruth isso; Ruth aquilo; Ruth-não-sei-oquê!”

Roberto olhava para Marco, completamente abobalhado.
Ficou por um tempo observando o amigo para ver se em algum momento cairia na risada e faria algum gracejo indicando a grande piada.
A risada veio. Para o bem da verdade, foi uma boa e ressonante gargalhada.

- O amigo me perdoe, mas ‘cabei de lembrar de uma situação muito engraçada com minha amada! Estávamos, Maria Sofia e eu, passeando pelo parque, quando.

Mas Roberto não prestava mais atenção. Viu que dali não viria nenhuma pilhéria. E percebeu que, ao citar o nome de cada mulher, os olhos de Marco brilhavam. Depois se censurou por querer encontrar lógica naquele insólito diálogo. E pensou: “Brilham também, os olhos dos bêbados e dos loucos!”
E foi tirado do seu devaneio com a gargalhada – ainda mais alta – de Marco.

- Não foi engraçado? – perguntou naquele tom dos que esperam uma resposta positiva.
- Sim, sim... – respondeu e ensaiou um meio-sorriso.
- O amor... Ai, ai, o amor...

E lá estava ele com o tal brilho no olhar.

- Verdade. – disse, sem nenhuma ideia do que concordava.
- Isso mesmo.

Roberto estava armando a deixa para encerrar aquele encontro, quando Marco engatou:

- Quando conhecer Adriana, vai entender porque só falo nela!

Não aguentando mais tanto absurdo, Roberto levantou-se e foi ao ponto:

- Marco, sinto muito, mas tenho compromisso. Preciso ir.
- Claro, claro! Eu também preciso ir, vou à joalheria. Comprarei uma aliança e amanhã mesmo, peço Letícia em casamento.

Roberto só esboçou um sorriso.

- Que bom. – foi o máximo que conseguiu dizer.
- Boníssimo! Bo-níssimo!

Marco de um forte abraço em Roberto.

- Sempre muito bom conversar com você!

Gritou ao garçom “coloca na conta” e saiu todo sorridente e sussurrando “ai, o amor!”
Roberto ficou ali parado vendo o amigo ir embora. Refletiu sobre toda a loucura que vivenciou há pouco...
Sorriu e disse para si: “Esse daí, ama demais!”

09 maio, 2012

AH, O AMOR!

E, nada sabendo sobre o amor
Estendeu a mão para ela e disse:


- Vem comigo, vai dar tudo certo!


Ela foi.
Não durou três meses.

18 abril, 2012

DESABAFO DE UM TÍMIDO*

Sempre fui um tímido. Nunca consegui evitar isso.

Mas naquele dia... Não sei bem o que me aconteceu! Senti-me corajoso. E quase sem conseguir ordenar as palavras disse à Dorinha – o grande amor da minha vida desde os meus seis anos – o quanto gostava dela. Que a amava! Na verdade, desde sempre!

Ela ficou mascarada. Encheu-se de si à medida qu’eu mais e mais a exaltava.

Com o tempo, aproximei-me cada vez mais e fazia visitas regulares à sua casa... O golpe é que, como sempre fui uma boa pessoa, o pai dela e todos na casa, gostavam muito de mim. Até consegui permissão para levá-la ao cinema! E foi aí que começou a minha desgraça... Ao sairmos do cinema, topamos com um casal. Depois disso, quase que como efeito de prestidigitação, Dorinha foi ficando murcha e, por fim, quando chegamos a sua casa, confessou que amava o sujeito lá. Casado! Vê! Falou que, sendo ou não casado, era dele que gostava e que não queria me namorar. Então, disse-me “adeus”! E apesar da dor, compreendi e fui atrás de viver minha vida.

Dela, soube dia desses que Seu Osmany [um vizinho] a viu de braços dados e assim, assim com o Fulano.

Enfim. Minha vida seguia normalmente até que, há pouco, o pai da Dorinha chegou e, aos gritos de “engravidaste minha filha, patife”, deu-me um tiro na cabeça. Morri.

*Texto inspirado em texto – sem título – de Nelson Rodrigues do Livro “Pouco Amor, Não É Amor”.

12 abril, 2012

TEMPO...

Mas o tempo (sempre ele!) não compreende a nossa necessidade
"preciso de mais um pouco de tempo"
e passa, passa, passa...
E quando a gente menos espera,
já foi.

09 março, 2012

EU TE A... #gasp-gasp#

- Prometi a mim mesmo que não digo mais “eu te amo!” pra mulher nenhuma.

- Mas... e se aparecer a mulher da sua vida?

- Ela vai ter que conviver com isso. Ou melhor, sem isso.

- E se aparecer aquela vontade incontrolável de falar isso pra ela?

- Seguro na boca, engasgo, e engulo.

- Não acha que isso é um pouco cruel?

- Ela se acostuma.

- ‘Tou falando qu’é cruel com você mesmo.

- Nada. Eu me acostumo.

03 março, 2012

VIDA DE CINEMA

CENA UM:

Bar lotado. Ele se aproxima d’Ela e oferece-lhe uma bebida. Ela aceita. Os dois bebem e riem bastante.

CENA DOIS:

Ele está sobre ela. O lençol cobre seus corpos. Transam devagar. Ao fundo, vemos através da janela a chuva cair.

CENA TRÊS:

Ele e Ela, diante do padre, dizem “Sim, eu aceito!”.

CENA QUATRO:

Ele e Ela, diante do juiz, dizem “Sim, eu quero me separar!”.

20 fevereiro, 2012

O QUE DIZER?

Junto com o gozo, veio – meio desgovernado – um “Eu te amo!”. Até ele se surpreendeu por falar isso!

Silêncio.

Depois, ela começou a mover os lábios. Ainda não sabia ao certo o que ia responder.

Um barulho na fechadura. Passos. Os pais dela chegando.

Rápido tiveram que se vestir e fazer parecer que nada faziam.


Ela nunca se sentiu tão feliz por seus pais aparecerem!

07 fevereiro, 2012

O ENDEREÇO DOS SONHOS

Finalmente o avião aterrissa! Foi uma viagem longa e cansativa.

No aeroporto pego um táxi.

Encosto a cabeça no apoio do banco, digo o endereço ao taxista e perco-me em meus pensamentos... Penso nela, em nossos dias felizes – e nos tristes também –, em todas as promessas que fizemos um ao outro. Em tudo o que a gente poderia ter sido, mas não deu. Ela não quis ou eu não quis.

Olho pela janela do carro e aquilo tudo me parece tão longe da realidade. Da minha realidade.

Vejo pedestres, vendedores ambulantes, bichos, todos disputando um pedaço da calçada. Uma eterna briga por seu território.

Pergunto-me se eles são felizes...

E eu, sou feliz?

Sou tirado dos meus pensamentos quando o carro para. Então, percebo que estou em frente a casa dela. Dei o endereço errado ao taxista. Ele está olhando pra mim, diz quanto custou a corrida e estende a mão para receber o dinheiro.

Digo que me enganei. Que aquele não é meu endereço – nunca foi meu endereço! Talvez, em meus sonhos – e desta vez falo o correto.

Ele dá partida e o carro sai. Penso em olhar para trás, mas me contenho. Porém, antes do carro entrar na rua seguinte, olho para trás.

Nunca deixei de olhar para trás.

16 janeiro, 2012

Escudo e suas rachaduras

 

17:00. O dia não podia ter sido pior para ele. Várias reuniões. Muitas ligações. Fast Food e trânsito lento.

Olha para o painel do carro, calcula a rota no celular e percebe que o escritório já não é mais uma opção. Duas ligações são feitas e o expediente encerra naquele minuto.

Sentiu-se um pouco aliviado e talvez por isso percebeu que estava próximo da praia. Resolve estacionar, mas displicente, quase atropela um mendigo. Relutante, olha para todos os lados e resolve descer. Leva consigo, apenas o que importa: Carteira, celular e o tédio.

Avista ao longe um lugar, que está ligada por uma pequena estrada de tijolos... vermelhos e sujos.

Caminha lentamente, mantendo a cabeça se altiva mesmo seu ânimo estando em cacos, percebe que se aproxima do lugar que já foi um marco de esperança.

Aperta o passo e desvia uma parte do caminho pois ao seu encontro uma senhora iria lhe oferecer uma flor e Deus é prova quanto ele não suporta aquelas pessoas.

A estrada finda e ele se deixa levar pelo o ambiente. Ousa sentar no mesmo lugar e fecha os olhos. A sua mente viaja por doze longos anos.

17:37. A brisa fazia os cabelos dela tocarem o seu rosto. Ao fundo um violão emitia um som pop de um banda que o agradava. Os olhos dela miravam um horizonte rajado de vermelho e os últimos raios de sol realçavam a pele morena e no seu olho esquerdo ele via o sol desistindo de mais um dia. Fascinado, admirava aquela mulher, tal qual um artista admira a obra-prima de um colega e rendido ele pede um beijo, algumas palavras foram ditas e ela reluta de forma tímida, esperando uma decisão dele, que veio logo em seguida. Naquele momento, ele sentiu que o universo tinha apenas dois metros e que o oxigênio não era mais essencial. A vida tinha ganhado sentido pela primeira vez...

17:30. Ele abre os olhos. Percebe que a brisa quase estoura os seus ouvidos. Alguns adolescentes entoam um música pop que ele odeia. O céu vermelho parece sangrar e os últimos raios solares o fazem lembrar que o engarrafamento de logo mais, fará com que ele fique preso no trânsito por uma hora

Levanta-se e constata que a sua armadura, forjada com as frustrações, rotina e objetividade ainda tinha suas frestas. Dá as costas para o sol poente e por um instante tem o impulso de olhar para trás, mas ele sabe que verdadeiro sol na verdade já se escondeu há doze anos e depois, cada dia foi apenas uma imitação de mal gosto.

Technorati Marcas: ,

14 janeiro, 2012

Escolha e Morte

 

Neste sábado ensolarado, um livro emprestado por um amigo foi meu companheiro.

A estética do livro é de uma beleza única, pois são quadrinhos de gente grande, criado por gente que não desaprendeu a sonhar.

O texto é simples, porém ataca os nossos sentimentos mais enraizados, diria que ele procura atingir os nossos instintos: sexo, felicidade, paixão e morte são correntes em todo o texto. A narrativa flui despretensiosa e mesmo parecendo anárquica faz todo o sentido depois que você termina a última página.

O tema central é a escolha que fazemos cotidianamente. Como essas escolhas podem influenciar o nosso futuro? Como é perigoso tentar antever as consequências.

Os personagens são todos secundários pois a sensação latente é que o protagonista é você, pois em cada situação, você pergunta para si mesmo. Será que fiz a escolha certa?

Não espere desses dois, o humor negro da moda ou mesmo o sarcasmo vil, desprenda as suas amarras e aceite o convite para ser um turista de sua própria vida!

http://web.hotsitepanini.com.br/vertigo/series/daytripper/

http://10paezinhos.blog.uol.com.br/tiras/

 

Technorati Marcas: ,

04 janeiro, 2012

Quero te pegar histérica

Ela – Meus Deus, esse ônibus que não chega.

Ele – Mas não faz nem trinta segundos que você chegou.

Ela – Eu sei, mas me disseram que ontem teve arrastão nesse ponto...

Ele – Não se preocupa, eu te protejo!

Ela – Meu Deus, esses assaltantes que não chegam.

 

Obs. Uma singela homenagem a um dos blogs que eu mais curto e recomendo http://querotepegarsobrio.wordpress.com/ 

Technorati Marcas: ,,

12 dezembro, 2011

TIPO DE CARA

Sabe aquele tipo de cara que ela sempre liga quando precisa de um ombro pra chorar?
Sou eu.

Sabe aquele tipo de cara que, quando ela tem uma novidade, conta pra ele, pois torce MUITO por ela?
Sou eu.

Sabe aquele tipo de cara que, quando ela ‘tá mal, ele tem as palavras exatas que vão consolá-la?
Sou eu.

Sabe aquele tipo de cara que ela adora ter por perto, pois a faz rir bastante?
Sou eu.

Sabe aquele tipo de cara que ela JAMAIS vai ficar porque ele é “legal demais”[!]?
Pois é... Sou eu. ¬¬’

20 novembro, 2011

SIMPÁTICO

Sentado, ele olhava a paisagem pela janela do ônibus. Usava fones nos ouvidos.

Uma mulher que estava sentada ao seu lado, o cutucou e disse:

- Eu não ‘tou conseguindo ouvir.

Ele olhou para ela, fez um gesto para indicar que não tinha entendido.

Ela o cutuca novamente e repete:

- Eu não ‘tou conseguindo ouvir.

Tirou os fones dos ouvidos.

- O que a senhora disse?

- Que não ‘tou conseguindo ouvir.

- O quê?

- O que ‘cê ‘tá ouvindo.

- Isso deve ser porque os fones estão nos meus ouvidos, não? – ironizou.

- Sim, claro. Mas mesmo assim, sempre dá pra ouvir um pouquinho. Eu gosto de saber o que as pessoas ouvem.

- Ah. – disse sem mostrar nenhum interesse. - Acontece que a senhora não ‘tá conseguindo ouvir porque eu não ‘tou ouvindo nada. Na verdade, eu detesto música! ‘Tou apenas com os fones.

- E por que faz isso? – perguntou curiosa.

- Para evitar que as pessoas puxem conversa comigo. Odeio falar com desconhecidos. Não tenho paciência e nem gosto de parecer simpático.

Ela deu um sorriso forçado. Olhou à sua volta, viu um lugar vazio e foi sentar lá.

Ele colocou novamente os fones nos ouvidos e continuou a observar a paisagem pela janela. Em silêncio.

06 novembro, 2011

OS OLHOS MAIS TRISTES DO MUNDO

- Você é feliz? – perguntou assim, à queima roupa.

A pessoa que levou o tiro-pergunta, que por sinal, não o conhecia – só estava sentada ao seu lado por mera casualidade da vida –, olhou para ele, para ter certeza s’ele falava com ela ou se falava sozinho.

Aproveitando qu’ela olhava pra ele, repetiu a pergunta:

- Você... É feliz?

Ficaram por um tempo se olhando. Um tempo dilatado. Que se estendia além do habitual.

A pessoa percebeu qu’ele tinha os olhos mais tristes do mundo. Depois se perguntou como sabe isso já que não conhece todas as pessoas do mundo. Mas numa súbita convicção, disse a si mesma que, se conhecesse todas as pessoas do mundo, com certeza, ele teria os olhos mais tristes de todas.

- Não sei. – respondeu cheia de hesitações.

- Eu não sou. – disse. - Você é feliz? – perguntou mais uma vez, ignorando a resposta anterior.

- Já disse, não sei. Acho que não é uma coisa constante. Tem dia que ‘cê ‘tá, e dia que não. Não dá pra ser o tempo todo. Eu acho.

- Eu não sou. – repetiu.

- E o que é que te faz infeliz? – perguntou e se surpreendeu consigo, pois detestava conversar com estranhos.

- Eu não sou infeliz.

- Mas você disse que...

- Disse que não era feliz.

- E...?

- Não sou infeliz. Apenas me falta felicidade. Vejo casais de mãos dadas; crianças correndo atrás de borboletas ou de outro bicho qualquer; homens de negócios dentro de seus carros importados indo, às pressas, para alguma reunião; cachorros roendo ossos; religiosos indo para seus templos... Todos, ao seu jeito, dentro do que anseiam, sentindo-se felizes.

Ficou em silêncio por um tempo, depois continuou:

- Eu, não.

Os olhos mais tristes do mundo brilharam, mas não pareciam que iriam chorar. A pessoa teve medo que isso acontecesse, pois não saberia como deveria reagir.

Pensou que, se falasse uma frase de efeito, talvez, pudesse ajuda-lo. A frase não veio.

Continuaram em silêncio.