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08 julho, 2009

A DAMA PRATEADA DE UMA NOITE ÚMIDA


A atmosfera era inebriante: copos de bebidas balançando nas mãos musicadas de casais, que exibiam suas sexualidades quase sempre enclausuradas em papeis sociais bem-comportados; conversas desconexas conectadas a danças embaladas por músicas de um passado tão próximo quanto desconhecido; a cacofonia urbana convencional substituída pela nada convencional vontade de divertir-se numa festa estranha com gente esquisita. Tudo embalsamado por uma chuva caudolosa: Férias + Parque do Cocó + shows gratuitos.
Antes dela começar, momentos preciosos foram perdidos por um atraso qualquer. Um narrador despreparado tentava acalmar ânimos, amigos gritavam em coro “Queremos Maria Rita!”, outros berravam jocosamente “Deixa pra lá, chama a mãe dela!”, “Toca Raul!”. Alguns se beijavam. Outros riam. Quase todos bebiam outros goles de seus somas liquefeitos, enquanto uma luz era projetada no palco vazio...
Até que um silêncio cerimonioso foi estuprado por palmas e gritos de boas vindas. Era Ela. Atrasada? Sim. Meio sem-jeito? Sim. Com um vestido criminosamente sexy e uma voz adoentada por uma gripe que insistia em acompanha-la há alguns dias. Maria Rita Costa Camargo Mariano. Ou simplismente Maria Rita.
Não sei o nome da maioria das musicas que ela cantou. Pouco importa. Como disse um amigo, ela é o tipo de intérprete que torna impossível acompanhar suas “cantadas”, tamanha a destreza vocal de seu talento. Obviamente houve momentos ímpares – Encontros e despedidas, Cara valente, Pagu - mas não adianta relatar agora. Se você estava presente, minhas mal-traçadas linhas nada representaram daquela noite. Se você não estava, perdeu um momento único. Qualquer dúvida a respeito do talento de Maria Rita se esvai diante de sua exuberante performance num palco. E de suas lindas pernas é claro.

03 junho, 2009

DESPEDIDA

Este é o último poema que teço pra você.
Não por deixar de te amar,
Mas apenas para não mais sofrer.

Escrevo de qualquer forma:
Versos longos, língua caótica,
Tolas rimas, palavras tortas,
Puro sangue, sem normas.

Quem sabe o mal que se esconde,
No peito de quem tem saudade?
Sorrisos, antes pontes,
Retiram-se em inerte maldade.

E eu tenho que dizer adeus a esse amor.
Mas se o amor me define, quem sou?

Azedume ar. Salobra água.
Hirto caminho, solitária cama.

Doce amargura remoída,
Rancor e lágrimas.
Despedida.

27 maio, 2009

VER

O nosso amor? fenece.
Como morrem as margaridas.
Isso acontece...
Tudo bem, é a vida.

13 maio, 2009

PÚSTULA

( Foto "A Cerca" de nosso bloguer Danilo Maia)

Eu lembro de todas as risadas


Vertidas nas entranhas desta cama.


E até sinto o gosto do teu rosto:


Riso-choro de quem ama.



Lembro dos meus afagos


Em tuas costas nuas:


Nosso escambo profano,


Em úmidas carnes cruas.



Lembro de cada filme venerado,


Cada emoção digna de nossa idade.


Quanto dinheiro gasto,


Nos escuros templos desta cidade?



Escutem – demônios, meu clamor!


Venham idéias racionais!


Como supero a dor,


De vê-la sorrir em outros carnavais?



Estas memórias são navalhas.


E minha mente um esmeril.


Gasto o tempo, como um canalha,


Abortando minha alma pueril.

06 maio, 2009

SONETO EM DOR MAIOR

(foto "O Cadeado" de nosso Bloguer Danilo Maia)

A dor do amor perdido,
Em instantes sempre recriados,
Alimentam o rancor urdido
Nos segundos nunca apagados

Morremos em cada recorrência
Cada si, cada talvez...
Perdendo nossa consciência
Em esforço de vil embriaguês.

Deixe sua mente livre!
Grito-me em desatino.
Embora, tolo como um tigre,
Caçe, em vão, meu destino.

27 abril, 2009

CHORO I

Quem controla o desamor,
Esta besta adormecida,
Que desperta -
em terror -
Ao ouvir passos de formiga?

Quem atende à razão,
Quando tudo lhe indica,
Que no fracasso da paixão,
Há intenções nada pudicas?

Quem, oh mal! Vê além,
Das camas amassadas?
Do rancor, reféns.
Da dor, escravas.

22 abril, 2009

TOP FIVE: MEUS VERSOS MALDITOS!

Um bom verso é aquele que conseguimos plagiar. Um ótimo verso é aquele que tentamos roubar. Mas um maldito verso é aquele que jamais conseguiremos suplantar ou esquecer. Pois em cada uma de suas letras esta impresso tal grandeza simbólica, que nos ajoelhamos (de raiva e torpor) diante de tamanha perversidade. A seguir os meus 5 versos malditos ... quais são os seus?

5º Soneto do Amor Total
Amo-te tanto, meu amor... Não cante / O humano coração com mais verdade.../ Amo-te como amigo e como amante / Numa sempre diversa realidade.

Vinicius levou sua máxima “que seja eterna enquanto dure” às ultimas conseqüências e como resultado casou 9 vezes, viajou muito, bebeu muito (mais) e pariu alguns dos mais belos versos da musica (e literatura) brasileira.

4º O Quereres
Onde queres revólver, sou coqueiro / E onde queres dinheiro, sou paixão /Onde queres descanso, sou desejo /E onde sou só desejo, queres não. /E onde não queres nada, nada falta /E onde voas bem alto, eu sou o chão / E onde pisas o chão, minha alma salta / E ganha liberdade na amplidão...

Tá, eu sei que o Caetano é, provavelmente, o artista mais superestimado do século XX, dono de um pedantismo insuportável e provocador meia boca. Mas convenhamos, nesta canção ele condensa toda a incomunicabilidade das relações amorosas de uma forma sublime e direta, que deixaria Bergman morrendo (!) de inveja.

3º Pedaço de mim
Oh, pedaço de mim /Oh, metade arrancada de mim/Leva o vulto teu/ Que a saudade é o revés de um parto/A saudade é arrumar o quarto/Do filho que já morreu...

Todos os homens gostariam de ser Chico Buarque. Todas as mulheres gostariam que os homens fossem Chico Buarque. Sua obra é quase um receituário psicológico universal: na depressão, ouça Atrás da porta e se mate de vez; na separação invista em Trocando em miúdos e diga adeus; no recomeço da vida vá de Olhos nos olhos e assim por diante....


2º Desencanto
Meu verso é sangue. Volúpia ardente... / Tristeza esparsa... Remorso vão...Dói-me nas veias. Amargo e quente, / Cai, gota a gota, do coração. /E nestes versos de angústia rouca, /Assim dos lábios a vida corre, /Deixando um acre sabor na boca. / - Eu faço versos como quem morre.

“Ontem, hoje, amanhã: a vida inteira, teu nome é para nós, Manuel, bandeira.” È preciso dizer mais?

1º Versos Íntimos
Toma um fósforo. Acende teu cigarro! / O beijo, amigo, é a véspera do escarro, A mão que afaga é a mesma que apedreja. / Se a alguém causa inda pena a tua chaga, /Apedreja essa mão vil que te afaga, / Escarra nessa boca que te beija!

Augusto é o melhor antídoto para todo raio de frescura humana: delírios de grandeza, chororô de desamores, depressão vã, nada resiste a seus versos malignos. Dos anjos? Só se for dos caídos...

16 abril, 2009

PER CÊ, VEJO?

Das alturas, (entre nuvens?)
Persiste uma mulher.
Só sei seu nome.
Não sei quem é.

Se grita ou encanta, não sei.
Nem mesmo a vejo!
Só sei das impressões da tela
(pouco a percebo...)

Nem mesmo sei se existe,
Além de certo desejo,
Será que dorme ao som de percevejos?

Há vida além do synergia?
Se não, seus textos, quem cria?

Sei seu nome, nada além.
Mas o que é um nome, porém,
Comparado com quem manda?
U
m nome eu sei: Hosana.

14 abril, 2009

ELA


A tristeza não alimenta a poesia,
Só retira a vista qualificada,
Propondo viagens e visitas,
Às memórias antes evitadas.

Ela não tem charme ou estima,
Só recria dores cinzentadas,
Tudo destrói e arruína,
Impondo-nos vidas amassadas.

São tantas noites mal-dormidas!
Tanto choro, tanto arquejo...
Que largamos a luta combalida,
Enterrando, enfim, nosso desejo.

E até a arte nos destesta,
Quando a morte, seca, vejo.
Aí, nada mais nos resta,
Apenas seu doce frio beijo.

09 abril, 2009

RECONHECIMENTO



Eu choro por nós,
Não por ter sido vítima,
e sim teu algoz.

Eu lamento por nossos prantos,
Não por que fomos santos,
Mas apenas por terem sido tantos.

Ah, como é fria a luz do desamor!
Uma estrada sem setas.
De uma lado: rancor
Do outro, metas.

CAMINHO


Eu conheço esse atalho:
Teu forcado, meu arado.

Já vesti teu sorriso:
O sentido do meu abrigo.

Já li teus poemas:
Tuas cenas? minhas algemas.

Mas agora... jão não peco.
Teus laços? Me despeço.

02 março, 2009

PROMETEU SEM PROMESSAS

Do que é feito o amor?
De onde vem sua infalível chama?
Como resistir ao torpor,
De se ter, enfim, a quem se ama?

Eu não sei. Nem mesmo ligo.
Meu amor era azêmola,
Filho torto de Sísifo.

Quando acordava, tecia seus poemas
(Amargos doces do destino),
Ao dormir - grande hiena,
Devorava meus sentidos.

Ao entrar, perfilado, paria-me esperanças.
Ao sair, jeremíaco, deixa-me às traças.
Ele novo – eu criança.
Ele longe – aonde graça?

26 fevereiro, 2009

AXIOMA


Eu digo adeus. Adeus às confidências repartidas em quartos escuros de motéis, às juras tediosas de eternidade, às alegrias incontáveis de poucos instantes. Digo adeus, e ela também, às brigas intermináveis de domingo, às risadas intermináveis de domingo, às manhãs intermináveis de domingo. Digo adeus. Adeus aos beijos navalhantes do desejo, às indiferenças apregoadas de intenções, à intimidade úmida dos lençóis. Eu digo adeus aos choros combalidos na madrugada, às toques doces de reânimo, à língua lasciva ao pé-de-ouvido. Eu digo adeus às mentiras disfarçadas em sorrisos, à sorrisos deturpados pela culpa, à culpa desgastada impunemente. Eu digo adeus às possibilidades abortadas, aos interesses calculados, às desculpas robotizadas. Digo adeus, e sei que todos em algum momento também, à deliciosa espera do reencontro, à dilacerante espera do reencontro, à indiferente espera do reencontro. Digo adeus aos telefonemas saudosos e burocráticos ao longo do dia, aos corpos molhados em silhueta nos umbrais, à customização da confiança no amor. Dizemos adeus, eu e ela, à obrigação do agrado sistemático, à santificação da mentira sufocante, ao afogamento metálico do cotidiano. Nós dizemos adeus à recompensa banal do casamento, à incalculável riqueza de se ter um ombro amigo, a indisfarçável e nojenta segurança da rotina. E saudamos, a (sempre) incerta rua do adiante.

17 fevereiro, 2009

TOP FIVE: ADAPTAÇÕES DE QUADRINHOS

Adaptações são uma necessidade dos estúdios: em tempos de crise do capital, quem possuir uma franquia com público garantindo, tem o retorno do seu investimento assegurado. Acontece que o público não está mais tão idiota, e os produtores perceberam que precisam de uma força criativa capitaneando seus projetos, e muitas vezes os escolhidos são diretores-fãs como Sam Raimi.
E com Wolverine e Watchmen em breve salvando nossos finais-de-semana, apresento as 05 produções que ajudaram a criar e a estabelecer este novo gênero:

05. SUPERMAN, O FILME
Orçamento classe A? Tem. Diretor jovem, talentoso e hypado? Sim. Ator-xerox do personagem principal? Pode apostar! Roteiro enxuto, com ação e fidelidade? Yeah. Atores coadjuvantes respeitados? Claro! Pronto: A receita infalível de uma pérola pop. É claro que nem tudo foram flores na viagem do homem-de-aço nas telonas (o "homem sol" do IV e a nova Lois Lane com bulimia que o diga!), mas foi o sucesso acachapante deste filme que fez a indústria perceber a mina de ouro que tinha nas mãos. Não se enganem: se hoje temos milionários construindo trajes especiais ou nerds adolescentes pulando prédios devemos a Richard Donner e a Reeves, Cristhopher Reeves.

04. O CORVO
Infelizmente este filme é sempre lembrado como o último trabalho de Brando Lee. Esquecem, porém, do impacto que ele causou no meio dos anos 90. Mace Indu, ou melhor, Samuel L Jackson, fã de quadrinhos confesso e assíduo frequentador da Comic Con de San Diego,sempre o aponta como o marco zero da nova geração de adaptações. O filme é muito mais que uma simples história de vingança, é a própria atmosfera negra do nosso caos urbano capturado com energia, estilo e dor. É muito fiel às origens do personagem, mas consegue superar o original ao compor um canto de sofrimento que até hoje não encontrou similar. E, de quebra, permitiu ao direto Alex Proyas filmar Cidades das Sombras (outra obra Cult, plagiada descaradamente por certos irmãos W).

03. BLADE, O CAÇADOR DE VAMPIROS
Ok, o filme não é lá muita coisa, só uma produção modesta de um personagem obscuro (sem trocadilhos racistas) da Marvel, mas merece estar nesta lista por dois motivos. Primeiro: o fracasso de Batmam e Robin quase fez a indústria desistir de adaptar qualquer coisa. Foi o sucesso inesperado do caçador de sanguessugas,e de dois agentes de preto, que trouxe novo ânimo ao gênero e viabilizou filmes como X-men e Homen-aranha, produções que ha décadas estavam na zona fantasma dos estúdios. Segundo: gerou uma continuação superior (mas nem tanto) que ajudou Del Toro a se estabelecer no terreno de Hollywood
(e a nos garantir doces como Labirinto do Fauno e, claro, o aguardado The Hobbit).

02. SIN CITY
O que Robert Rodriguez não tem como talento, sobra em camaradagem. Seus amigos do peito topam qualquer parada, e por si só já valem o ingresso. Mas ele foi além e conseguiu convencer Frank Miller (afastado do cinema desde que Robocop II enferrujou suas pretensões) a adaptar sua obra-prima com a estética, ação e violência típica do autor de Elektra Vive. O que queremos mais? Há quem argumente, porém, que o filme é, na verdade, uma Transposição, levada ao pé da tinta, do material original e não a Adaptação de uma HQ à linguagem do cinema. Semânticas à parte, o filme inaugurou uma nova percepção sobre o termo fidelidade, elevando à estratosfera a pretensão iniciada em Dick Tracy e Batman, o Retorno. E, de troco, nos presenteou com uma tecnologia revolucionária (aplicada depois, com mais impacto, em 300 e The Spirit).

01. O CAVALEIRO DAS TREVAS.

Falar da 2ª maior bilheteria da história em um espaço tão pequeno é quase um crime. O filme é tão rico que prefiro deixar isso para outro momento. O importante aqui é reconhecer que estamos presenciando uma nova revolução. Não apenas tecnológica - apesar do Imax ser apontado por várias publicações de calibre, como o futuro da fotografia no cinema. Não, a mudança mais importante aqui, é dramática. Até agora, as adaptações se estabeleceram como gênero, garantiram o caviar de executivos e as pipocas dos nerds, mas ainda não haviam gerado seu Cidadão Kane, seu Poderoso Chefão – Um filme capaz de quebrar barreiras, alargar horizontes e galgar respeitabilidade diante de qualquer outro exemplar "sério" da sétima arte. Coube a Cris Nolan, um cineasta admirável, realizar esta façanha. Em Batman Begins ele já tinha surpreendido, ao criar um conto sinistro sobre o medo na sociedade e sua manipulação no coração dos homens. Mas em The Dark Knight, ele superou todos os clichês de um "filme de herói" – do título não comercial às interpretações viscerais, dos efeitos especiais às campanhas de divulgação, das cenas de ação ao cuidado na lapidação dos personagens. E como resultado, fomos presenteados com o mais perturbador debate sobre a maldade humana. Uma obra-prima.

O SEXTO DIA E A IDENTIDADE PESSOAL

A Globo exibiu, no último “Domingo Maior”, O Sexto Dia, tentativa pífia de se fazer um filme de ação que preste. Arnold interpreta (!) um piloto de helicóptero que acaba sendo clonado por engano e resolve lutar por sua vida e o bla, blá, blá de sempre. Como cinema, o filme é apenas trash (no mal sentido), mas como Ficção Cientifica, ele até permite um debate interessante: Qual é a verdadeira natureza de identidade? A Filosofia define identidade pessoal como “as condições sob as quais uma pessoa em um momento é a mesma pessoa em outro momento...”

O que faz você ser você e não outro? Sua constituição génetica? Sua aparência? Suas memórias?
Bem, tudo que existe em você: pele, sangue, genes e até a molecula de seu DNA é formada por elementos quimicos. Pelos mesmos elementos químicos que estavam aqui no dia da criação. Não há perda de matéria lembra? Portanto, os átomos que te formam já estavam, estão e estarão aqui. Dizer que você é as moléculas que te formam é afirmar que, basicamente, todos somos um corpo só, e, francamente, isto só era bem aceito nos anos 70.

Você também não pode ser apenas o que aparenta. Por quê? Imagine, por exemplo, o Presidente Lula e FHC. São duas pessoas diferentes sem dúvida, e não por causa da política econômica de seus governos. Pensamenos então em todas as óbvias diferenças físicas entre os dois: a barba, os noves dedos, o fato de um ainda ter esposa. Imagine agora que, por sorte, o avião do atual presidente caiu, Lula e FHC sofrem um acidente 06 vezes pior que o de Leornado de Caprio em O Aviador. Imagine que eles ficaram completamente desfigurados, perderam as pernas, os braços, os estomagos. Estão fisicamente idênticos, (apenas duas massas pretas jogadas em macas de hospital) sobrevivendo apenas por ajuda de santos e aparelhos. Eles deixaram de ser duas pessoas diferentes? É claro que não. Continuam feios, é verdade, mas ainda são duas pessoas diferentes.

Então, você é suas memórias? Bem, consideremos aqui memórias não apenas como sinônimo de lembranças, mas como sendo todo o conjunto de pensamentos, desejos, recordações que existem no nossa mente, ou seja nossa consciência. Sim, nós somos a nossa consciência. Podemos dizer que nossa memoria é a melhor maneira de nos definirmos, mesmo levando em consideração que nossa consciência muda com o passar do tempo. Neste caso mudamos, mas permanecemos os mesmos. Ninguém deixa de ser alguém se passar a apreciar, sei lá, Vitor e Leo (ou deixa?). Mudamos nossoa gostos, nossas vontades, nossa moral, mas não deixamos de nos reconhecer como a mesma pessoa por causa disso.

Porém aqui reside um dilema cruel. Se um clone seu possui suas memórias, seus desejos, suas lembranças mais íntimas, todos seus segredos (que você votou no Collor e tudo mais), tem suas fobias, suas aspirações. Podemos afirmar que o clone é você?

Sim podemos. Não vale argumentar dizendo: “eu sou eu por que vim primeiro que o clone” como você poderia ter certeza? Todos seus pensamentos são os mesmos lembra? E se não houvesse ninguém de fora pra poder dizer? Mas como ele pode ser eu, se eu sou eu? Bem, boa sorte...

10 fevereiro, 2009

SEGUNDA-FEIRA

O dia estava norma. Matematicamente normal naquela manhã: pássaros passariando, folhas caindo, pessoas compromissadas – a futilidade vestindo-se de rotina. Eu? Só estava sentado.

Esperava, tristemente, minha aula começar (eram 8:30 do título e meu professor estava religiosamente com improvisos de horário) e comia uma criminosa fatia de bolo - mole - é claro, e tomava um providencial café-com-leite. Foi quando o vi. Vagaroso e decidido, passando por entre os banquinhos que formam as pracinhas da Universidade Estadual do Ceará.

Era apenas mais um (dentre tantos) que vadiam pelo campus: gatos, alunos, pombos, servidores, insetos, livros, carros, problemas e dúvidas...Não me chamou particularmente a atenção, mas como estava vindo na direção do meu olhar, pude observá-lo melhor: estava magro, ossudo até(Provavelmente, como os irmãos), sujo sim, mas não repulsivo. Compartilhava com todos o derrotismo de sonhos destroçados e a dignidade encontrável apenas naqueles que nada têm.

Seu gingado era um lamento, como se a qualquer momento, fosse desabar ao cimento, de tanto mal-estar. O peso da fome não se pode disfarçar. Aproximou-se. Fitou-me com seus olhos de lamúria. Não foi difícil perceber o que precisava. Apenas uma migalha de atenção, um pedaço de carinho, uma fatia de afago. Joguei-lhe minhas sobras (não tinha nada mais) e pude perceber seus dentes – os poucos que restavam – amarelados e desgastados, acostumados, quem sabe, à ossos e a indiferença, às esmolas e pontapés.

Observei-o seguir adiante (o que mais lhe restava?), cambaleante e patético. Triste, rotineiramente triste. Mordiscando o começo de seu dia.

09 fevereiro, 2009

FRAMES

Existem instantes que marcam. Determinam uma vida. Dividindo-a em antes e depois, como um véu que se dissipa e revela aos olhos incrédulos uma nova realidade. São eventos triviais e intensos, como o beijo roubado no meio de um sorriso, ou o adeus – seco e doloroso – no desenlace das mãos apaixonadas. E, tais quais velas desregradas, balançam ao vento do destino, impedindo medições aprimoradas.

São estalos de puro ardor e medo, como o nascimento do filho indesejável que sempre te esperou em segredo. Ou a leitura, lenta e colorida, daquele poema - estranho e intensamente perturbador. São atos luminosos, como a morte anunciada (e temida) do parente próximo, ou como aquela onda – lembra? Aquela que te derrubou na praia e te fez sentir medo, muito medo. São flashes de sentido, luzes negras revelando segredos, como o instante antecessor a penetração que te revela o fim da virgindade.

Ver Chaplin pela primeira vez é um destes momentos. Perder o amor nunca conquistado, e o enrijecimento incontrolável durante a descoberta da mentira e a vergonha sublinhada no olhar reprovativo de sua mãe, também.

Para alguns é o encadeamento desses fatos, sua sucessão (i)lógica, que traduz em sentido o mistério reticente, como se o resultado da equação explicasse os motivos da soma. Para outros é a espera, a cadência harmoniosa de cada acontecimento que justifica o viver, como se a cerca fosse definida pelas estacas que a sustentam.

Infelizmente a maioria das pessoas não os percebe, não os vê. Acolhendo, com agrado os joelhos de gigantes aleijados. São canhestras formigas, que sempre terão uma tela de cinema num quarto escuro abandonado: inútil, mas com propósito.

Porém, existem os outros. Poucos é verdade. São os que amam como supernovas, os que engolem os desafios e as canduras sem perder suas bússolas. São os senhores de seu destino, os capitães de sua alma, são escritores, artistas e pedreiros. Podem ser estadistas, filósofos e até lixeiros. Não importa. Para estes, sempre haverão as horas mágicas. O incansável itinerário do relojoeiro cego.