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14 janeiro, 2012

Escolha e Morte

 

Neste sábado ensolarado, um livro emprestado por um amigo foi meu companheiro.

A estética do livro é de uma beleza única, pois são quadrinhos de gente grande, criado por gente que não desaprendeu a sonhar.

O texto é simples, porém ataca os nossos sentimentos mais enraizados, diria que ele procura atingir os nossos instintos: sexo, felicidade, paixão e morte são correntes em todo o texto. A narrativa flui despretensiosa e mesmo parecendo anárquica faz todo o sentido depois que você termina a última página.

O tema central é a escolha que fazemos cotidianamente. Como essas escolhas podem influenciar o nosso futuro? Como é perigoso tentar antever as consequências.

Os personagens são todos secundários pois a sensação latente é que o protagonista é você, pois em cada situação, você pergunta para si mesmo. Será que fiz a escolha certa?

Não espere desses dois, o humor negro da moda ou mesmo o sarcasmo vil, desprenda as suas amarras e aceite o convite para ser um turista de sua própria vida!

http://web.hotsitepanini.com.br/vertigo/series/daytripper/

http://10paezinhos.blog.uol.com.br/tiras/

 

Technorati Marcas: ,

16 outubro, 2011

AMOR ADOLESCENTE

- Vontade de viver um amor adolescente...
- Mas você já tem trinta anos.
- Não disse que quero ser adolescente. Disse que quero viver um amor adolescente.
- Ah, quer namorar uma adolescente? Isso é pedofilia.
- Não quero namorar uma adolescente, seu chato!! Disse que quero viver um amor adolescente!!! Sabe, aquele lance de amar desordenadamente!! Achar que aquele amor será pra sempre e o mais importante de todos!! Essas coisas...
- Hum. Então, quer pensar e agir feito um idiota. É isso?
- Você ‘tá impossível hoje.

10 março, 2011

ENCONTRO

O "olá!" é dito sem o entusiasmo de outrora. Não parece haver interesse nas perguntas. Tudo é mecânico... "Como vai?"; "E o trabalho?; "'Tá tudo bem?"... Apenas cumprindo uma formalidade.
Por fim, a conversa se resume ao valor do cartão de crédito que deverá ser pago até o final do mês.
E o "tchau!" é falado com alívio...

09 março, 2009

RECOMPENSA*

Ela já nem sabe mais o que é dormir à noite. Tem que sair cedo, antes de escurecer, pois quanto mais cedo sair de casa, mais coisas irá encontrar e assim ganhar mais dinheiro. Se é que centavos a mais dá para chamar de “mais dinheiro”.

Veste sua roupa, calça um tênis surrado que achou outro dia, pega sua carroça e sai. A noite ainda não começou, mas o sol já está tingindo o céu de laranja, anunciando o fim da mais um dia.

Já na primeira esquina ela encontra uma boa quantidade de plásticos. “Hoje vai ser bom!”, pensa. Continua sua jornada pelas ruas da cidade, parando aqui e ali, analisando cada saco de lixo na esperança de encontrar algo que sirva.

Às quatro da manhã, a sua carroça já está cheia e ela, muito cansada. Não se considera uma velha, tem apenas cinqüenta anos, mas teve uma vida de sofrimento e trabalho duro – desde criança – o que lhe faz sentir como se o corpo tivesse cem anos.

Fazendo a última rota já pensando em ir para casa, passa por um supermercado e vê alguns papelões no lixo. Resolve apanhá-los. “Um dinheirinho a mais”, reflete.

Quando está separando os papelões, vê que entre os sacos de lixo tem um saco diferente, feito de pano. Pegou o saco e ao abrí-lo sentiu como se um raio a tivesse atingido. Não conseguia acreditar no que via. Dentro do saco tinha uma quantia de dinheiro que ela não conseguiria contar no primeiro momento. Apertou o saco contra o peito, olhou para cima e agradeceu: “Obrigado Senhor! Tinha certeza que hoje ia ser bom!”.

Após o momento de êxtase, percebeu que o saco tinha uma figura, e que a figura era a mesma da placa do supermercado, então se deu conta que aquele dinheiro pertencia ao supermercado. Pensou sobre o que deveria fazer. Mesmo sem ter idéia do valor exato, sabia que com aquele dinheiro pagaria todas as contas e ainda sobraria algum para ficar sem preocupações por um bom tempo.

Se preparava para colocar o saco dentro da carroça quando lembrou que tinha uma vizinha que trabalhava naquele supermercado, então, também como um raio, foi atingida pela grande verdade: apesar daquele dinheiro ser do riquíssimo dono do supermercado, com certeza, algum funcionário – pobre como ela –, por descuido, fez com que aquela quantia fosse parar no lixo. Engolindo a frustração de ser ver rica apenas por um breve momento, resolveu esperar o supermercado abrir para devolver o dinheiro. Sentou na calçada e esperou.

Enquanto esperava, se alegrou por ser uma pessoa honesta, e se o dono do supermercado percebesse o mesmo, com certeza ficaria muito grato e lhe daria uma recompensa. Como era muito dinheiro que tinha naquele saco, então, seria uma imensa recompensa!

Quando o dono chegou no supermercado, ela se aproximou e pediu para falar com ele. Ele com um misto de desconfiança e impaciência disse-lhe que falasse logo, pois tinha pressa. Ela mostrou o saco com dinheiro e contou-lhe toda a história. No mesmo momento ele pegou o saco de suas mãos e a convidou para entrar.

Em sua sala, ele começou a enaltecer a honestidade daquela mulher e para mostrar que estava profundamente agradecido lhe daria uma recompensa.

Chamou o responsável pelo caixa, pediu que ele guardasse o dinheiro no cofre e disse-lhe que depois conversariam sobre o ocorrido e que, “cabeças rolariam”.

- Agora vamos à sua recompensa. – disse voltando-se para aquela mulher.

Abriu uma gaveta e de lá de dentro tirou quatro notas de cinqüenta reais, entregou-lhe e pediu que saísse, pois ainda tinha muito o que fazer.

Ela, agradecida, pegou os duzentos reais – o valor de sua honestidade – e foi para casa pensando: “Eu sabia que hoje seria um dia bom!”



( * ) Texto inspirado em notícia no jormal.

Recompensa de R$ 200Catadora acha R$ 40 mil no lixo e devolve a donoCatadora de lixo achou R$ 40 mil no lixo de um supermercado e devolveu o dinheiro ao dono do estabelecimento. Ela ganhou R$ 200 de recompensa e gastou parte do dinheiro no próprio supermercado, onde comprou refrigerantes. Com o restante, a mulher disse que pagaria dívidas.

26 fevereiro, 2009

AXIOMA


Eu digo adeus. Adeus às confidências repartidas em quartos escuros de motéis, às juras tediosas de eternidade, às alegrias incontáveis de poucos instantes. Digo adeus, e ela também, às brigas intermináveis de domingo, às risadas intermináveis de domingo, às manhãs intermináveis de domingo. Digo adeus. Adeus aos beijos navalhantes do desejo, às indiferenças apregoadas de intenções, à intimidade úmida dos lençóis. Eu digo adeus aos choros combalidos na madrugada, às toques doces de reânimo, à língua lasciva ao pé-de-ouvido. Eu digo adeus às mentiras disfarçadas em sorrisos, à sorrisos deturpados pela culpa, à culpa desgastada impunemente. Eu digo adeus às possibilidades abortadas, aos interesses calculados, às desculpas robotizadas. Digo adeus, e sei que todos em algum momento também, à deliciosa espera do reencontro, à dilacerante espera do reencontro, à indiferente espera do reencontro. Digo adeus aos telefonemas saudosos e burocráticos ao longo do dia, aos corpos molhados em silhueta nos umbrais, à customização da confiança no amor. Dizemos adeus, eu e ela, à obrigação do agrado sistemático, à santificação da mentira sufocante, ao afogamento metálico do cotidiano. Nós dizemos adeus à recompensa banal do casamento, à incalculável riqueza de se ter um ombro amigo, a indisfarçável e nojenta segurança da rotina. E saudamos, a (sempre) incerta rua do adiante.

16 fevereiro, 2009

FEVEREIROS

(“Alalá ôôôôô...! Alalá ôôôôô...!”)

Estamos em fevereiro, e como em todos os anos, os ânimos de [quase] todos estão a mil! Não se fala em outra coisa a não ser, CARNAVAL.

Pois é. Toda conversa, seja na escola, trabalho, bar, universidade, casa, igreja (isso mesmo, até nas igrejas!), gira em torno do carnaval. Lugar algum escapa desse assunto.

As perguntas mais freqüentes são: “Vai passar carnaval onde?”; “ E aí, onde vai ser o carnaval mais ‘irado’?”; “Ei ‘rapá’, carnaval na praia ou na serra?”.

E os comentários após o carnaval são praticamente os mesmos: “Bebi todas!”; “Fiquei com um monte de gatas (os)!”; “Bebi tanto que desmaiei!”; “Tive que tomar glicose na veia!”.

É que existe a idéia de que tudo é possível no carnaval. Tudo mesmo!!

Algumas pessoas “se oprimem” o ano todo só esperando ansiosamente pelo carnaval para “se libertar”. E como se libertam! Libertam seus instintos mais selvagens (e libidinosos!). Homem sai pelas ruas vestido de mulher, mulher anda seminua, as pessoas sentem-se a vontade em dormir nas ruas (ou fazer TODAS as suas necessidades nela!). Beber até cair é algo merecedor de troféu! Pessoas que geralmente mal abrem a boca para desejar um “bom dia” de tão tímidas que são, nesta época, se tornam em algumas situações as mais populares da festa, pois abraçam, beijam e sorriem para todo mundo.

E tudo que se faz, depois é justificado com a célebre frase: “Ah, é carnaval!”. Pronto, só isso já explica tudo.

Você pode me ignorar, afinal, a vida é sua e ninguém melhor do que você para saber o que lhe faz feliz, portanto, beba, fume, cheire, dance e namore em pé (mas não esqueça a camisinha!). Mas que tal se propor algo diferente neste carnaval?! Um retiro espiritual ou pelo menos segurar – um pouco – a onda.

Lembre-se, são quatro dias para se libertar, mas o resto do ano (ou da vida!) para se arrepender.

Um Feliz Carnaval!

12 fevereiro, 2009

Atormentado pelo dia

Acorda com uma indisposição, o relógio toca sem se preocupar de como ele está. Sonolento se levanta. Mecanicamente vai ao banheiro, sabe que a água fria é a fonte para sair do transe do sono. Por muitas vezes pensa em não querer acordar. O daí que o espera vale tudo isso. Não quero fugir do meu sonho, da minha ilusão perfeita diz ele.

A barulhenta cidade acorda, e ele não tem escolhas, viver no que já está decidido. Deve acordar! No banho, não a tempo a perder. Corra, corra! Se arrume! Em meio à arrumação mecanizada, que faz todo dia. Em meio a arrumação ainda acha tempo para pensar no bom que será se ele começar a tomar as decisões do mundo que o cerca.
Medo o atinge, a mudança é algo incerto. Para que mudar, ele sobrevive bem do jeito que está.

Atraso sempre. Na parada, sons o perseguem, conversas alheias, murmúrios, lamentações, até orações para um dia bom. O interior dele se perturba com tanta agitação.

Lá vem o trânsito, numa cidade sem descanso. Só construção a admirar e pensar no quão paradoxal é a vida, tentando fugir da inquietude do mundo. E ainda sim ele ouve as asneiras da cidade. Já se acostumou?! Os ouvidos adaptaram-se aos ruídos, mas o corpo ainda não a tanta intoxicação.

No trabalho, Oh não disse ele. Cinco minutos atrasado. Lá vem sermão do chefe, de como o minuto é importante e quão essencial você é a empresa. Ele é um “colaborador” e a empresa depende dele. Bronca, advertência tentando ser motivacional. O que quer dizer isso afinal.

Tenta focalizar no trabalho, esperando que assim passe mais rápido. Se a menos não contassem as horas e sim a força e meta alcançadas no dia. Isso sim seria motivacional.

Atrapalha-se a olhar as novas colaboradoras. Como em todo lugar, sempre existe alguém ou algo a nos atrapalhar. Ele olha o potencial de todas. Cuidado, ou outro sermão vai levar. Ele tenta espera a hora do almoço chegar, mas ele tem medo de arriscar. O dia pode ser pior se “queimar”. Por que é tão difícil tomar decisões?! Ou é o medo de mudar a vida que o atormenta.

Exaurido por este dia, alivia-se de acabar um dia de trabalho. Conversar com os colegas, ligar para amigos, vale tudo no final do dia. Para pelo menos salva-lo da desgraça da monotonia. Recusas são feitas. Alegações as mesmas. Tomadas pela canseira do dia.

O jeito é ele voltar para casa, mas uma vez atravessa a cidade no ônibus lotado. O ônibus transforma-se numa sauna. Hora de expelir o ar e ficar mais imprensado. E ainda ter que suportar o trânsito que já deixou de ser suportável.

Chegando a casa, só resta um jantar e um banho a tomar. Deita-se na cama, libertando-se das tormentas do dia e pondo a sonhar em um dia em outro lugar.

09 fevereiro, 2009

FRAMES

Existem instantes que marcam. Determinam uma vida. Dividindo-a em antes e depois, como um véu que se dissipa e revela aos olhos incrédulos uma nova realidade. São eventos triviais e intensos, como o beijo roubado no meio de um sorriso, ou o adeus – seco e doloroso – no desenlace das mãos apaixonadas. E, tais quais velas desregradas, balançam ao vento do destino, impedindo medições aprimoradas.

São estalos de puro ardor e medo, como o nascimento do filho indesejável que sempre te esperou em segredo. Ou a leitura, lenta e colorida, daquele poema - estranho e intensamente perturbador. São atos luminosos, como a morte anunciada (e temida) do parente próximo, ou como aquela onda – lembra? Aquela que te derrubou na praia e te fez sentir medo, muito medo. São flashes de sentido, luzes negras revelando segredos, como o instante antecessor a penetração que te revela o fim da virgindade.

Ver Chaplin pela primeira vez é um destes momentos. Perder o amor nunca conquistado, e o enrijecimento incontrolável durante a descoberta da mentira e a vergonha sublinhada no olhar reprovativo de sua mãe, também.

Para alguns é o encadeamento desses fatos, sua sucessão (i)lógica, que traduz em sentido o mistério reticente, como se o resultado da equação explicasse os motivos da soma. Para outros é a espera, a cadência harmoniosa de cada acontecimento que justifica o viver, como se a cerca fosse definida pelas estacas que a sustentam.

Infelizmente a maioria das pessoas não os percebe, não os vê. Acolhendo, com agrado os joelhos de gigantes aleijados. São canhestras formigas, que sempre terão uma tela de cinema num quarto escuro abandonado: inútil, mas com propósito.

Porém, existem os outros. Poucos é verdade. São os que amam como supernovas, os que engolem os desafios e as canduras sem perder suas bússolas. São os senhores de seu destino, os capitães de sua alma, são escritores, artistas e pedreiros. Podem ser estadistas, filósofos e até lixeiros. Não importa. Para estes, sempre haverão as horas mágicas. O incansável itinerário do relojoeiro cego.

26 janeiro, 2009

A procura incessante


Caro leitor de blogs, azarado por natureza, provavelmente nasceu já inserido na web e provavelmente não chegou a ler livros em sua versão original, ou melhor em sua versão de papel.

Amigo ou amiga anônima, que se diverte com textos bem ou mal escritos escritos, seja pela qualidade ou pela originalidade, perde noites em claro buscando o santo graal dos blogs, aquele blog que irá lhe entender, pois será divertido sem ser vulgar, será inteligente sem ser intelectual, será moderno, porém real, o super blog, o blog divino.

Você passará horas e mais horas na frente dele, perderá projetos importantes no trabalho, amigos deixarão de conversar com você ao vivo, sua família perderá contato, até seu cachorro morrerá de fome devido a sua ausência existencial.

Mas tudo será recompensado pelo novo post, perfeito como sempre. Único, pelo menos pelos os próximos trinta segundos.

19 janeiro, 2009

Em julho, peixe come verdura?

O escritor Jorge Pieiro encontra o Eu e a partir dele viaja e volta, de leste a oeste, e descobre que aqui é qualquer lugar

O que é útil e mesmo necessário ao homem está ao seu alcance, mas o que ele admira sempre é o inesperado. (Longino)

O prumo literário de Eu é o de um anarco-surrealista em busca de uma dose de absinto. Sinto que não pode ser tão fácil assim para ele correr nessa raia insana. Ana - uma Bolena qualquer desta Fortaleza - um dia olhou para olhos vermelhos de Eu, que lhe perguntou se já havia realizado alguma viagem ao incerto da terra, tendo como guia aquele Rick Wakeman já sem longo cabelo. Belo foi o espanto dela. Ela se mostrou resistente à resposta. Posta na mesa a dúvida, foram consumidos alguns relatos de Eu sobre viagens reais ou delirantes e, solta no ar, a questão-título desta crônica, talvez para fisgar qualquer atenção. Tensão, pois, ao admirável inesperado.

viagem viagem
Na BR-116 Eu trafegava em um Passat bege. Viera resmungando mantras desde o susto na barreira rodoviária. Sentia a força misteriosa que lhe sacudia o tronco, aqueles sons de vaca sagrada que imaginara ter ouvido numa sessão de ioga. Apropriara-se do delírio inusitado e imaginara estar piloto de um disco voador ali pelas alturas da Aerolândia. Psicodelismos sem incentivos externos - afinal, endorfina misturada com adrenalina servem para provocar isto mesmo - quase o levaram ao êxtase. Mas todo cuidado é pouco, apesar de que a imaginação é uma arma muito decente... E Ana achou graça. Nunca passara por aquilo...

de leste a oeste
Tanto fez, se a bordo de uma camionete com aimarás na fronteira do Peru, ou no furgão de um ex-refugiado em Tiahuanaco, ou nas asas da Lloyd Aero Boliviana, ou na canoa sobre o Titicaca, ou no trem da morte desde Puerto Suárez, ou no táxi para a Estação da Luz, ou no jeep vermelho em Bamberg, ou no Antonov 26 rumo a Cayo Largo, ou no trem a partir da Estación de Chamartín, tanto fez, se todos os caminhos terminaram ante o boi de pedra de defronte ao saguão do velho Aeroporto Pinto Martins, nas cercanias da Lagoa do Opaia, habitat do sapo-cururu ancestral. Voltar sempre foi um dilema. Esta Fortaleza, pensou Eu, é uma concha semi-lacrada, a falsa cela de Bárbara de Alencar no Forte Schoonenborch... E Ana sorriu desconfiada. Jamais imaginara tantos caminhos e nenhum destino...

daqui pra lá
Com um Evan(gelista), um viagem épica. Dois dias em um fusca amarelo rumo a Teresina. Fumaça, fome e farra. Mais fumaça e fome que farra. Viajar em todos os sentidos era o que dava o tom. Daqui pra lá, festa. De lá pra cá, cansaço, desespero, arrependimento. Eu não tinha mesmo o que fazer. Não bastasse, logo em seguida, o primeiro vôo, quase direto ao Geraldão, em Recife, para o rock progressivo do Rick. E, sem perder o rumo, salto distante à capital do Brasil para -ter-o-que-fazer na "Caminhada da Lua". Sem contar a loucura do semi-leito rumo a Belém, só para Ver-O-Peso... E Ana entortou o canto da boca, sem jeito, como se quisesse perguntar por que Eu voltava sempre...

o sem terno retorna
Eu ia todos os domingos ao centro Sobral da terra e retornava todas as terças à desalmada capital. O ônibus, ida e vinda, era nauseabundo e ninguém sentia. O povo era bom, mas não sabia disso direito. Nos terminais, em um, os pobres eram soberanos, como soberano fora o historiador e poeta Antônio Bezerra. No outro, Eu não entendia como podia ser tão fétido o caminho do alívio - dos ricos? E o engenheiro João Thomé certamente era só vergonha, onde estivesse. Uma amiga de Eu, pretendia um povo limpo!", apesar dos "pobres", mas também dos lixinhos jogados de Pajeros pretas dos que dizem pagar impostos, sic, para ter direitos...

aqui é qualquer lugar
Eterno é o retorno à convulsão... Eu sabe: de paz e sanidade é do que ele e esta Fortaleza necessitam... Para aquela Ana, Eu findara por admitir que a verdadeira viagem fora a daquele instante férias: ao coentro da guelra do peixe saboreado no Zé do Mangue, tardezinha de garças, de cheiro forte de chão e lama, de lua beirando a profana alegoria, de coração em pólvora, enfastiado de tantos problemas e de certas incertezas do cotidiano.

Crônica de Jorge Pieiro, Cearense, Escritor e Professor

15 janeiro, 2009

Inglórias e Eu nas alturas desfiadas

Dar-te-ei tudo isto, se prostrando-te diante de mim, me adorares. (Mat 4, 9)

O homem pós-moderno é muito mais insensível do que o moderno! Revitalizando as palavras de Anatole Baju em seu Manifesto Decadente, de 1886, Eu sacode os ombros e decide sofrer as verdades desta vida destoante. Apóia-se no silêncio e enfia-se em escadas invisivéis rumo aos píncaros, de onde a queda é mais grave.
Na verdade, Eu revive conflitos. Paradoxos e barroquismo. Ou fantasia a serenidade e transforma-se em nefelibata - aquele que anda ou vive nas nuvens. Daí todo esse cortejo de experiências sendo reavaliado. Trazendo no peito a marca dos angustiados, Eu experimenta a tentação de ser alevantado às alturas, porque aqui por baixo ninguém mais se atura, nem em prosa ou em verso barato.
Pouco a pouco, desanovela o fio do nó da garganta... e esta Fortaleza - bela? -, das alturas, vai diminuindo de tamanho, visível por todos os lados, parecendo linda, pura, insana, confirmando a lógica perversa do de-perto-ninguém-ou-nada-é-normal, e vai se desanuviando, se renunciando...
Eu respira fundo, transporta-se a outro tempo e lugar, e sente a primeira vertigem. Volta ao lugar de nunca mai. E do alto da torre da igreja de Santo Antônio, escalada furtivamente, entre morcegos, cheiros de vela e sombras da mente , uma coleção de Carlos Zéfiro acentua o primeiro desejo. e no olhar distanciado e satisfeito ao alto de um prédio ao largo, uma velha águia repousa, como se estivesse crucificada, sobre o globo terrestre. Profanando a sua própria história, Eu imaginava a ave defecando pedrinhas sobre o mundo...
Passe mágico, Eu veste-se de medo, desta feita no alto da coluna da hora na praça Capitão João Ennes, perseguindo o rastro de uma gosma existencial deixada pelos ponteiros em sua vertigem eterna. Muito além, a Chapada do Apodi e seus escarros de poeira vermelha firma-se como um altar de sacrifícios. Tonto, Eu parecia ruminar verdades em alguma cadeira a balançar no alto de uma roda gigante do Parque Brasil.
Veio, então, a vez de sobrevoar outra mesma divindade. Eu, filho de Nossa Senhora da Assunção, desviou seu carinho profano para Nossa Senhora da Conceição. Limoeiro do Norte passou a ser um monóculo escondido na gaveta, quase a doer, e as cores de Fortaleza, vistas de cima, era quase encantada pelos pontos luminosos salpicados da arte de Zé Tarcísio, e forjaram espinhos na garganta de Eu. Mas era só miragem...
Eu não pretendia ser universal cantando a mirrada aldeia ou a desgastada Aldeota, mesmo porque todos os lotes do senso comum eram clandestinos. O poeta exilado desta paragens Adriano Espínola já se manifestara do alto do Hotel Savanah, em 1982, ao lançar sobre a cidade, literalmente, seu desagravo , celebrando a urbe e a vida contemporânea, movida pela economia liberal-burguesa-consumista.
Eu não expressaria seu horror diante da torre da TV Cidade, quando ali do alto o malfado filho do mundo, entre a angústia e a desilusão, ouviu os gritos, grito de Münch avesso e deturpado, de uma canalha sem coração: "Pula, pula!" Quanta expressão de dor nos sons daquela audição escura, latente, terrifica, revelada por Augusto César Motta em trilha de filme nunca realizado!
Eu não desistiria do calabouço invertido dos céus em cenas de indizível prazer, em retornos desde Lima, Lommel, Havana, Quillacollo, Kolscheidt... Eu só não queria a vida desse jeito, Abel Silva, asa partida... Eu só queria sonhar ou voar mais livre, sem o chumbo nas asas, sem o sol de Ícaro, sem o fim dos desejos.
Do alto deste edifício, moço, Eu apenas ansiaria o verde que se raspa das margens do Cocó; rogaria uma luz mais nítida, a clarear novas imagens coloridas, enfeitando mais uma vez o Morro Santa Terezinha; pediriria uma cruz mais viva para realinhar em novo tempo Pnzon e Diogo Lepe, nas dunas da Barra do Ceará...
Mas o homem pós-moderno é muito mais insensível! E este chão de nuvem transforma Eu em assasino da própria dor. E a vertigem se dá mesmo é no chão, por este chão de asfalto irregular, por estas vielas inchadas de mistérios e algozes, por esta falta de educação latente pelas ruas e calçadas.
Insensível, embora uma réstia de esperança ainda se produza, Eu sabe que esta ausência de certezas e de cidadania e o jogo premeditado de todos os jeitinhos recebem de braçoa abertos a fina flor da sociedade que se esmera em produzir o lixo da aldeia.
Não pela reminiscência lúdica em um chão de barro e piões e bolinhas de gude e chuva e lama, mas pelo chumbo de um céu caindo spbre as cabeças, este inglória é o que mais implora o que resta desse Eu consumido, prostrado diante de nadas.

Crônica de Jorge Pieiro, Cearense, Escritor e Professor

12 janeiro, 2009

Sete quedas ou quase duas

Jorge Pieiro
Eu já levou muitas quedas na vida. de bicicleta Monareta ou sobre seu cavalo de ferro, pelos sertões ou no final das farras homéricas

Se existe razão de orgulho em meu passado, é que me tornei prisioneiro, e não soldado. (Joseph Brodsky)

Uma monareta verde foi o presente mais importante da vida de Eu. Aprendera muito cedo a andar sobre duas rodas e era até metido a realizar piruetas, mas não era tão ágil como Wilsinho ou Maninho, saltando do alto da pista-calçada da Igreja Matriz sobre um monte de areia. Na verdade, tinha era receio de estragar o presente dado pelos pais, por conta daquele sacrifício tão natural a famílias de dinheiro contado.

Mas não se fez de rogado uma vez e pediu emprestada a cobiçada monareta descascada - sem pára-lamas, sem porta-corrente, sem freios... - para o primeiro salto em direção ao... monte de areia quase metido narinas, ouvidos e goela abaixo, repercutido sob a vergonha daquelas vaias estrondosas só mesmo bem aplicadas pelas gargantas dos cearenses genuínos. A primeira queda a gente nunca esquece...

Distante da terra das bicicletas - a que quase fez o “videomaiquer” e fotógrafo Tibico registrar cenas no que seria o documentário Limoeiro, Amsterdã e Pequim - Eu até tentou pedalar pelas ruas soturnas da Terra do Sol, na época em que centenas de “baiques” interrompiam a calada com um desfile de fazer inveja a qualquer palco do mundo “fexion”. Mas não. A “baique” era peba e um desaviso levou Eu a espatifar-se em plena Duque de Caxias, quase bueiro a dentro.

Um dia daqueles distantes ainda, bateu uma vontade imensa de possuir uma Garelli. A tia ficava sem jeito, de tão cuidadosa, de quase negar uma volta ao sobrinho em seu motociclo amarelo... Quase por isso Eu jurou diante do espelho que um dia teria uma igual. Mas quando conseguiu juntar dinheiro, comprou do primo, Pote, de segunda mão, uma RX 125 marrom, Yamaha, com a qual ficou dormente logo na primeira semana, após, sem experiência nenhuma, engolir duzentos quilômetros de asfalto... Com a Honda vermelha já era mais hábil. Com a NX preta, metida a grande sem ser... Também, pudera, em companhia de Domingos, Catatau, Soldado e tais, não passava de militante de um bando de sabotadores de sanidades, gafanhotos de trilhas e da pista por trás da birosca de Zé do Peixe, na praia que nunca chega ao futuro.

A primeira queda veloz Eu também nunca esqueceu. Capacete não era ainda obrigatório, quanta irresponsabilidade! Todas as manhãs, saindo da Adolfo Herbster, pegava a Jovita rumo ao campus do Pici. Naquela, caíra um sereno suficiente para deixar o chão suado. A mãe, parece ter parte com os mistérios, comentou sem convicção, “vá de capacete, choveu...” Eu foi. Pois não é que inadvertidamente uma Brasília cruzou o caminho, deixando a motocicleta empurrando a porta traseira, enquanto, no auge do vôo, ouvia-se: “é um pássaro, é um avião” e não passava de Eu borbulhando no ar até se esborrachar sobre a bolsa de couro nas pedrinhas do asfalto... Quase uma fatalidade.

Mas as descaídas que contam mais foram aquelas irresponsáveis. Como por exemplo, a do retorno, já com o sol clareando, vindo do Estoril, excesso de cuidado que facilitou o sono do anjo da guarda. Numa passagem de nível, próxima à Francisco Sá, os olhos se embuçaram e o que restou foi a roda dianteira presa, acompanhada de rabiçaca da traseira, como se o cavalo de ferro se enfastiasse do dono da sela. E tome chão... Mas desta vez ninguém viu.

Ou aquela clássica, alta madrugada de soluços e imagens duplas, final da 13 de Maio, quando Eu, delirante, imaginou estar diante de um caminhão do lixo, boca de ferro engolindo tudo, e ele seria o próximo. E nesta fração, toda a convicção destinou-se ao freio a disco da dianteira. Não deu outra. Chão, farol e cotovelos integraram-se por um instante. Mas o melhor (ou pior?) estava por vir. Uma Kombi parou ao lado, um perguntou se estava tudo bem. Foi muito chato para aqueles improvisados anjos de resgate ouvirem o gracejo de Eu, perguntando: “Gostaram da queda?” Minha mãe que me perdoe o que ouvi...
Sem contar os acidentes que não aconteceram, mas poderiam ter transformado Eu em um montículo esponjoso de carne ralada. Por exemplo, a insânia de chegar novamente à capital pilotando uma 400cc, desde Juazeiro do Norte, passando por uma chuva de quase granizo sobre a flor da pele negra... Uma pedrinha ali desavisada seria quase um bicho sem proporção. Ou aquela descida da Serra de Baturité, até ficar sem freios na curva... A sorte veio da bananeira no caminho, melhor que qualquer pedra... Até a desistência de querer viver quase perigosamente, depois da inocente derrapada em óleo, na curva do viaduto, rumo a Messejana.

Ó tempos de Eu entre quedas e sorguimentos! Ó seleta expressão metafórica que cabe àqueles que se largam em perigos disfarçados de liberdade! Ó sonhos mal desenhados que despertaram sem seqüelas!

Pois foi dessa maneira que, sobrevivente, cedo da manhã, em plena Bezerra de Menezes, há poucos dias, Eu contou 28 motos e 17 bicicletas numa arrancada só, em direção ao centro da cidade. Entregues aos impulsos do vento e aos perigos do tempo, eles corriam em busca do pão a amassar na lida do dia. Eu ficou de memória, recordando, estarrecido, quase imóvel durante um segundo, até ser xingado entre buzinas, por não atentar para o sinal verde, sem mais nenhuma esperança, que o arrebatou daquele transe para a dura realidade da má educação e da intoxicada loucura das gentes... Em busca de quê?

Crônica de Jorge Pieiro, Cearense, Professor e Escritor