Me recebe com ar de candura
Seu sexo me deixa extasiado
Sem cerimônia, ela cobra seu valor
Sempre fui um tímido. Nunca consegui evitar isso.
Mas naquele dia... Não sei bem o que me aconteceu! Senti-me corajoso. E quase sem conseguir ordenar as palavras disse à Dorinha – o grande amor da minha vida desde os meus seis anos – o quanto gostava dela. Que a amava! Na verdade, desde sempre!
Ela ficou mascarada. Encheu-se de si à medida qu’eu mais e mais a exaltava.
Com o tempo, aproximei-me cada vez mais e fazia visitas regulares à sua casa... O golpe é que, como sempre fui uma boa pessoa, o pai dela e todos na casa, gostavam muito de mim. Até consegui permissão para levá-la ao cinema! E foi aí que começou a minha desgraça... Ao sairmos do cinema, topamos com um casal. Depois disso, quase que como efeito de prestidigitação, Dorinha foi ficando murcha e, por fim, quando chegamos a sua casa, confessou que amava o sujeito lá. Casado! Vê! Falou que, sendo ou não casado, era dele que gostava e que não queria me namorar. Então, disse-me “adeus”! E apesar da dor, compreendi e fui atrás de viver minha vida.
Dela, soube dia desses que Seu Osmany [um vizinho] a viu de braços dados e assim, assim com o Fulano.
Enfim. Minha vida seguia normalmente até que, há pouco, o pai da Dorinha chegou e, aos gritos de “engravidaste minha filha, patife”, deu-me um tiro na cabeça. Morri.
*Texto inspirado em texto – sem título – de Nelson Rodrigues do Livro “Pouco Amor, Não É Amor”.
- Prometi a mim mesmo que não digo mais “eu te amo!” pra mulher nenhuma.
- Mas... e se aparecer a mulher da sua vida?
- Ela vai ter que conviver com isso. Ou melhor, sem isso.
- E se aparecer aquela vontade incontrolável de falar isso pra ela?
- Seguro na boca, engasgo, e engulo.
- Não acha que isso é um pouco cruel?
- Ela se acostuma.
- ‘Tou falando qu’é cruel com você mesmo.
- Nada. Eu me acostumo.
CENA UM:
Bar lotado. Ele se aproxima d’Ela e oferece-lhe uma bebida. Ela aceita. Os dois bebem e riem bastante.
CENA DOIS:
Ele está sobre ela. O lençol cobre seus corpos. Transam devagar. Ao fundo, vemos através da janela a chuva cair.
CENA TRÊS:
Ele e Ela, diante do padre, dizem “Sim, eu aceito!”.
CENA QUATRO:
Ele e Ela, diante do juiz, dizem “Sim, eu quero me separar!”.
Junto com o gozo, veio – meio desgovernado – um “Eu te amo!”. Até ele se surpreendeu por falar isso!
Silêncio.
Depois, ela começou a mover os lábios. Ainda não sabia ao certo o que ia responder.
Um barulho na fechadura. Passos. Os pais dela chegando.
Rápido tiveram que se vestir e fazer parecer que nada faziam.
Ela nunca se sentiu tão feliz por seus pais aparecerem!
Finalmente o avião aterrissa! Foi uma viagem longa e cansativa.
No aeroporto pego um táxi.
Encosto a cabeça no apoio do banco, digo o endereço ao taxista e perco-me em meus pensamentos... Penso nela, em nossos dias felizes – e nos tristes também –, em todas as promessas que fizemos um ao outro. Em tudo o que a gente poderia ter sido, mas não deu. Ela não quis ou eu não quis.
Olho pela janela do carro e aquilo tudo me parece tão longe da realidade. Da minha realidade.
Vejo pedestres, vendedores ambulantes, bichos, todos disputando um pedaço da calçada. Uma eterna briga por seu território.
Pergunto-me se eles são felizes...
E eu, sou feliz?
Sou tirado dos meus pensamentos quando o carro para. Então, percebo que estou em frente a casa dela. Dei o endereço errado ao taxista. Ele está olhando pra mim, diz quanto custou a corrida e estende a mão para receber o dinheiro.
Digo que me enganei. Que aquele não é meu endereço – nunca foi meu endereço! Talvez, em meus sonhos – e desta vez falo o correto.
Ele dá partida e o carro sai. Penso em olhar para trás, mas me contenho. Porém, antes do carro entrar na rua seguinte, olho para trás.
Nunca deixei de olhar para trás.
17:00. O dia não podia ter sido pior para ele. Várias reuniões. Muitas ligações. Fast Food e trânsito lento.
Olha para o painel do carro, calcula a rota no celular e percebe que o escritório já não é mais uma opção. Duas ligações são feitas e o expediente encerra naquele minuto.
Sentiu-se um pouco aliviado e talvez por isso percebeu que estava próximo da praia. Resolve estacionar, mas displicente, quase atropela um mendigo. Relutante, olha para todos os lados e resolve descer. Leva consigo, apenas o que importa: Carteira, celular e o tédio.
Avista ao longe um lugar, que está ligada por uma pequena estrada de tijolos... vermelhos e sujos.
Caminha lentamente, mantendo a cabeça se altiva mesmo seu ânimo estando em cacos, percebe que se aproxima do lugar que já foi um marco de esperança.
Aperta o passo e desvia uma parte do caminho pois ao seu encontro uma senhora iria lhe oferecer uma flor e Deus é prova quanto ele não suporta aquelas pessoas.
A estrada finda e ele se deixa levar pelo o ambiente. Ousa sentar no mesmo lugar e fecha os olhos. A sua mente viaja por doze longos anos.
17:37. A brisa fazia os cabelos dela tocarem o seu rosto. Ao fundo um violão emitia um som pop de um banda que o agradava. Os olhos dela miravam um horizonte rajado de vermelho e os últimos raios de sol realçavam a pele morena e no seu olho esquerdo ele via o sol desistindo de mais um dia. Fascinado, admirava aquela mulher, tal qual um artista admira a obra-prima de um colega e rendido ele pede um beijo, algumas palavras foram ditas e ela reluta de forma tímida, esperando uma decisão dele, que veio logo em seguida. Naquele momento, ele sentiu que o universo tinha apenas dois metros e que o oxigênio não era mais essencial. A vida tinha ganhado sentido pela primeira vez...
17:30. Ele abre os olhos. Percebe que a brisa quase estoura os seus ouvidos. Alguns adolescentes entoam um música pop que ele odeia. O céu vermelho parece sangrar e os últimos raios solares o fazem lembrar que o engarrafamento de logo mais, fará com que ele fique preso no trânsito por uma hora
Levanta-se e constata que a sua armadura, forjada com as frustrações, rotina e objetividade ainda tinha suas frestas. Dá as costas para o sol poente e por um instante tem o impulso de olhar para trás, mas ele sabe que verdadeiro sol na verdade já se escondeu há doze anos e depois, cada dia foi apenas uma imitação de mal gosto.
Neste sábado ensolarado, um livro emprestado por um amigo foi meu companheiro.
A estética do livro é de uma beleza única, pois são quadrinhos de gente grande, criado por gente que não desaprendeu a sonhar.
O texto é simples, porém ataca os nossos sentimentos mais enraizados, diria que ele procura atingir os nossos instintos: sexo, felicidade, paixão e morte são correntes em todo o texto. A narrativa flui despretensiosa e mesmo parecendo anárquica faz todo o sentido depois que você termina a última página.
O tema central é a escolha que fazemos cotidianamente. Como essas escolhas podem influenciar o nosso futuro? Como é perigoso tentar antever as consequências.
Os personagens são todos secundários pois a sensação latente é que o protagonista é você, pois em cada situação, você pergunta para si mesmo. Será que fiz a escolha certa?
Não espere desses dois, o humor negro da moda ou mesmo o sarcasmo vil, desprenda as suas amarras e aceite o convite para ser um turista de sua própria vida!
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