20 março, 2009

ATO III - Cena I - Hamlet


Ser ou não ser... Eis a questão. Que é mais nobre para a alma: suportar os dardos e arremessos do fado sempre adverso, ou armar-se contra um mar de desventuras e dar-lhes fim tentando resistir-lhes? Morrer... dormir... mais nada... Imaginar que um sono põe remate aos sofrimentos do coração e aos golpes infinitos que constituem a natural herança da carne, é solução para almejar-se. Morrer.., dormir... dormir... Talvez sonhar... É aí que bate o ponto. O não sabermos que sonhos poderá trazer o sono da morte, quando alfim desenrolarmos toda a meada mortal, nos põe suspensos. É essa idéia que torna verdadeira calamidade a vida assim tão longa! Pois quem suportaria o escárnio e os golpes do mundo, as injustiças dos mais fortes, os maus-tratos dos tolos, a agonia do amor não retribuído, as leis amorosas, a implicância dos chefes e o desprezo da inépcia contra o mérito paciente, se estivesse em suas mãos obter sossego com um punhal? Que fardos levaria nesta vida cansada, a suar, gemendo, se não por temer algo após a morte — terra desconhecida de cujo âmbito jamais ninguém voltou — que nos inibe a vontade, fazendo que aceitemos os males conhecidos, sem buscarmos refúgio noutros males ignorados? De todos faz covardes a consciência. Desta arte o natural frescor de nossa resolução definha sob a máscara do pensamento, e empresas momentosas se desviam da meta diante dessas reflexões, e até o nome de ação perdem. Mas, silêncio! Aí vem vindo a bela Ofélia. Em tuas orações, ninfa, recorda-te de meus pecados.

Obra Completa - http://www.ebooksbrasil.org/eLibris/hamlet.html

15 março, 2009

Palavra Abstrata

Toda palavra é uma ilusão
Uma abstração
Esperando apenas uma ação
Para deixar de ser imaginação

Palavras ditas com intensidade
Perdem seu momento
Seu sentimento
Se não tem algo a oferecer

Da palavra vem um abraço

Um beijo
Um desejo

Para uma real situação
Ela vem ligada a uma ação
Antes de viver da palavra
Viva a ação

09 março, 2009

RECOMPENSA*

Ela já nem sabe mais o que é dormir à noite. Tem que sair cedo, antes de escurecer, pois quanto mais cedo sair de casa, mais coisas irá encontrar e assim ganhar mais dinheiro. Se é que centavos a mais dá para chamar de “mais dinheiro”.

Veste sua roupa, calça um tênis surrado que achou outro dia, pega sua carroça e sai. A noite ainda não começou, mas o sol já está tingindo o céu de laranja, anunciando o fim da mais um dia.

Já na primeira esquina ela encontra uma boa quantidade de plásticos. “Hoje vai ser bom!”, pensa. Continua sua jornada pelas ruas da cidade, parando aqui e ali, analisando cada saco de lixo na esperança de encontrar algo que sirva.

Às quatro da manhã, a sua carroça já está cheia e ela, muito cansada. Não se considera uma velha, tem apenas cinqüenta anos, mas teve uma vida de sofrimento e trabalho duro – desde criança – o que lhe faz sentir como se o corpo tivesse cem anos.

Fazendo a última rota já pensando em ir para casa, passa por um supermercado e vê alguns papelões no lixo. Resolve apanhá-los. “Um dinheirinho a mais”, reflete.

Quando está separando os papelões, vê que entre os sacos de lixo tem um saco diferente, feito de pano. Pegou o saco e ao abrí-lo sentiu como se um raio a tivesse atingido. Não conseguia acreditar no que via. Dentro do saco tinha uma quantia de dinheiro que ela não conseguiria contar no primeiro momento. Apertou o saco contra o peito, olhou para cima e agradeceu: “Obrigado Senhor! Tinha certeza que hoje ia ser bom!”.

Após o momento de êxtase, percebeu que o saco tinha uma figura, e que a figura era a mesma da placa do supermercado, então se deu conta que aquele dinheiro pertencia ao supermercado. Pensou sobre o que deveria fazer. Mesmo sem ter idéia do valor exato, sabia que com aquele dinheiro pagaria todas as contas e ainda sobraria algum para ficar sem preocupações por um bom tempo.

Se preparava para colocar o saco dentro da carroça quando lembrou que tinha uma vizinha que trabalhava naquele supermercado, então, também como um raio, foi atingida pela grande verdade: apesar daquele dinheiro ser do riquíssimo dono do supermercado, com certeza, algum funcionário – pobre como ela –, por descuido, fez com que aquela quantia fosse parar no lixo. Engolindo a frustração de ser ver rica apenas por um breve momento, resolveu esperar o supermercado abrir para devolver o dinheiro. Sentou na calçada e esperou.

Enquanto esperava, se alegrou por ser uma pessoa honesta, e se o dono do supermercado percebesse o mesmo, com certeza ficaria muito grato e lhe daria uma recompensa. Como era muito dinheiro que tinha naquele saco, então, seria uma imensa recompensa!

Quando o dono chegou no supermercado, ela se aproximou e pediu para falar com ele. Ele com um misto de desconfiança e impaciência disse-lhe que falasse logo, pois tinha pressa. Ela mostrou o saco com dinheiro e contou-lhe toda a história. No mesmo momento ele pegou o saco de suas mãos e a convidou para entrar.

Em sua sala, ele começou a enaltecer a honestidade daquela mulher e para mostrar que estava profundamente agradecido lhe daria uma recompensa.

Chamou o responsável pelo caixa, pediu que ele guardasse o dinheiro no cofre e disse-lhe que depois conversariam sobre o ocorrido e que, “cabeças rolariam”.

- Agora vamos à sua recompensa. – disse voltando-se para aquela mulher.

Abriu uma gaveta e de lá de dentro tirou quatro notas de cinqüenta reais, entregou-lhe e pediu que saísse, pois ainda tinha muito o que fazer.

Ela, agradecida, pegou os duzentos reais – o valor de sua honestidade – e foi para casa pensando: “Eu sabia que hoje seria um dia bom!”



( * ) Texto inspirado em notícia no jormal.

Recompensa de R$ 200Catadora acha R$ 40 mil no lixo e devolve a donoCatadora de lixo achou R$ 40 mil no lixo de um supermercado e devolveu o dinheiro ao dono do estabelecimento. Ela ganhou R$ 200 de recompensa e gastou parte do dinheiro no próprio supermercado, onde comprou refrigerantes. Com o restante, a mulher disse que pagaria dívidas.

07 março, 2009

Amigos

Amigos pra dá e vender?!
Não, não vendo nenhum!
Apenas concedo um amigo

Aqueles que precisam,
Concedo a minha alegria
Concedo um amigo, pra arrumar outro

A quem precisa de tudo
Um amigo é muito
Consolo, alegria, amor,
Esperança, uma luz de vida

Uma amizade bem feita
Sustenta na tristeza
Nos desperta para o horizonte

A jornada, descoberta do mundo
A iluminação de dias tem seu esplendor
Quando se tem um amigo

Você já tem um amigo?
Quem quer ter um amigo?

03 março, 2009


Como rosas são os sonhos
No desabrochar, um perfume cálido e suave
Que usurpa resistências
Que subjuga vontades

Como rosas são os sonhos
Várias cores, tonalidades
Que nos seduzem com sua beleza incauta
Exposta, tão frágil

Mas assim como as rosas
Que ao final de um tempo, um dia
Suas formas e harmonia se desvanecem
Os sonhos se vão fugazes
Deixando apenas
Espinhos...

02 março, 2009

Linhas em branco

Linhas em branco
Jogadas ao vento
Deixadas ao relento
Renegadas da lembrança, do momento

Dispensadas do pensamento
Linhas em branco, tempo passado sem nenhum pensamento
Tempo perdido que não vou atrás
Em branco deixou, momentos perdidos no tempo,
no infinito

A preguiça domou o meu pensamento
E assim se criou esse branco
Nem pensamento se firmou
Nem sorriso se manifestou

As linhas em branco
Silêncio
Tempo sem pensamento

Agora, arrependo-me desses meus lapsos de tempo
Não há como preencher essas linhas de tempo

PROMETEU SEM PROMESSAS

Do que é feito o amor?
De onde vem sua infalível chama?
Como resistir ao torpor,
De se ter, enfim, a quem se ama?

Eu não sei. Nem mesmo ligo.
Meu amor era azêmola,
Filho torto de Sísifo.

Quando acordava, tecia seus poemas
(Amargos doces do destino),
Ao dormir - grande hiena,
Devorava meus sentidos.

Ao entrar, perfilado, paria-me esperanças.
Ao sair, jeremíaco, deixa-me às traças.
Ele novo – eu criança.
Ele longe – aonde graça?

01 março, 2009

[a luz amarela dá na parede. o poste, eu penso. e penso pondo cuidado nos detalhes, os olhos atentos nas cores, nas formas e o sorriso atento na vida. ao simples respirar de vida, o rosto enche de alegria.]

outro dia escutei uma plantinha conversando com o vento. achei fantástico. dizia ela toda singela, no auge de seus poucos dias, que no estudo da vida, nessa que o sujeito se lança com sede nos olhos, o termo é coloquial.

fiz silêncio.
era deus.


imaginei os maiores mestres banguelos. os livros, conversas triviais de sábios. oh, sim!, os meninos nos girassóis...
fui perto da plantinha - o nome dela, perdão, não foi a pergunta que me surgiu. nem a ela. duas qualqueres, livres. duas simplesmente. e o sol sorria em cima do encontro, olhei pro braço e senti. e olhei também pro céu e li algumas nuvens. os movimentos lentos de tanto o vento prosear purali mais embaixo. mediante a porção de vida dentro do meu sorriso, então percebi que já estava há tempos em troca com a planta.

há um momento. e há infinitos. há infinitos e há um momento.

falei meio assim que é pra segurar os olhos. os olhos de vocês.
eu me chamo Lívia e sou aquela que gritou no final da música.

então você se aproxima de uma planta, a cada novo passo, vá conhecendo a fisionomia de sua nova amiga, deixa que ela te mude completamente, entrega teu saber, chega bem pertinho e diz olá. não espere uma mudança assim. mudança assim se diz quando o verde de repente é vermelho. ou quando um elefante alado canta leve no fio do poste. portanto, não espere o sapo de paletó. apenas saiba escutar a planta. dica: aprume os ouvidos, ela fala muito baixo. mas é grande. é infinito e a gente não volta. e mais uma vez o relógio te chama: ei!. e você volta para a sua sala, reconhece as paredes, sente os pés: hoje é quarta-feira e as janelas estão abertas corriqueiramente - propício ao ir. a mudança vem sem dizer uma só palavra, essa que eu falo é dessas que é feito uma maçã que amanhece mais saborosa. uma flor mais viva com o passar pingoso dos segundos. e você vai se enchendo de sabedoria, o tal estudo da vida, as lições de pé no chão. e o olhar reconhece o todo, o coração abraça o universo. e você aninha as sementes na terra, faz uma oração breve que é pra não enche-las demais. elas, animadíssimas.
você todo amor.
você a própria planta que vai nascer.

então compreenda. seja. se olhe no espelho.
o céu que por ventura se fizer dentro de você, é a resposta - no plural - que precisará na tua lida.

e que por sinal inventou uma dança meio maluca - eu, que um dia fiz amizade com a loucura e a vida ficou mais colorida.


sabe como é, a gente sonha e acorda em outro universo. prazer.

é uma honra rebentar neste domingo bem aqui neste local.

abraços.

27 fevereiro, 2009

Praia

Sentado na praia. O que pensar?
Tanta coisa passa pela minha cabeça. A vida, amizades feitas, risos dados, acalmar um coração precipitado, tempo a ser aproveitado.

Lugar pra pensar, prosar, compartilhar alegria!
Oh Cheiro da praia! Intrascrível!
Sensação de poder alcançar o infinito, a linha do horizonte faz-me pensar isso!

Onde certo e errado não tem vez. Dão lugar ao aqui e o agora!
Olhar no horizonte. Lugar onde céu e terra se encontram.

Sinto a volta dos primórdios de meus sentimentos e pensamentos. Acho as definições simples e reais do amor, da paz, da alegria...

A beleza do mundo entende-se nas palavras que escrevo na areia. Simples verdades que somem com a brisa e a marisia da praia, que nunca são ditas.

Faça chuva ou sol a praia não se define, mas teimosos como somos tentamos definir.

Paz
Retidão
Amor
Inspiração
Anseio de quando vou poder voltar

26 fevereiro, 2009

AXIOMA


Eu digo adeus. Adeus às confidências repartidas em quartos escuros de motéis, às juras tediosas de eternidade, às alegrias incontáveis de poucos instantes. Digo adeus, e ela também, às brigas intermináveis de domingo, às risadas intermináveis de domingo, às manhãs intermináveis de domingo. Digo adeus. Adeus aos beijos navalhantes do desejo, às indiferenças apregoadas de intenções, à intimidade úmida dos lençóis. Eu digo adeus aos choros combalidos na madrugada, às toques doces de reânimo, à língua lasciva ao pé-de-ouvido. Eu digo adeus às mentiras disfarçadas em sorrisos, à sorrisos deturpados pela culpa, à culpa desgastada impunemente. Eu digo adeus às possibilidades abortadas, aos interesses calculados, às desculpas robotizadas. Digo adeus, e sei que todos em algum momento também, à deliciosa espera do reencontro, à dilacerante espera do reencontro, à indiferente espera do reencontro. Digo adeus aos telefonemas saudosos e burocráticos ao longo do dia, aos corpos molhados em silhueta nos umbrais, à customização da confiança no amor. Dizemos adeus, eu e ela, à obrigação do agrado sistemático, à santificação da mentira sufocante, ao afogamento metálico do cotidiano. Nós dizemos adeus à recompensa banal do casamento, à incalculável riqueza de se ter um ombro amigo, a indisfarçável e nojenta segurança da rotina. E saudamos, a (sempre) incerta rua do adiante.

17 fevereiro, 2009

Berenice

De que matéria são feitas as mulheres?
Do pó brilhante das estrelas
Ou do vapor calcinante do Deus Sol

Como será possível nos encantar
a luz da noite, inebriar nossos sentidos
a luz do dia e nos trazer a crua e monótona
realidade, na madrugada seguinte

Não... não adianta buscar respostas,
Pois não existem manuais,
apenas a fria impressão que um
dia elas serão decifradas por algum ser
superior aos homens.

Enquanto não as entendemos
sejamos bobos, busquemos a dor
lancinante das queimaduras de terceiro grau
junto com o ofuscamento da poeira estelar
Sejamos engolidos pelas supernovas
Sejamos caçadores da beleza feminina

TOP FIVE: ADAPTAÇÕES DE QUADRINHOS

Adaptações são uma necessidade dos estúdios: em tempos de crise do capital, quem possuir uma franquia com público garantindo, tem o retorno do seu investimento assegurado. Acontece que o público não está mais tão idiota, e os produtores perceberam que precisam de uma força criativa capitaneando seus projetos, e muitas vezes os escolhidos são diretores-fãs como Sam Raimi.
E com Wolverine e Watchmen em breve salvando nossos finais-de-semana, apresento as 05 produções que ajudaram a criar e a estabelecer este novo gênero:

05. SUPERMAN, O FILME
Orçamento classe A? Tem. Diretor jovem, talentoso e hypado? Sim. Ator-xerox do personagem principal? Pode apostar! Roteiro enxuto, com ação e fidelidade? Yeah. Atores coadjuvantes respeitados? Claro! Pronto: A receita infalível de uma pérola pop. É claro que nem tudo foram flores na viagem do homem-de-aço nas telonas (o "homem sol" do IV e a nova Lois Lane com bulimia que o diga!), mas foi o sucesso acachapante deste filme que fez a indústria perceber a mina de ouro que tinha nas mãos. Não se enganem: se hoje temos milionários construindo trajes especiais ou nerds adolescentes pulando prédios devemos a Richard Donner e a Reeves, Cristhopher Reeves.

04. O CORVO
Infelizmente este filme é sempre lembrado como o último trabalho de Brando Lee. Esquecem, porém, do impacto que ele causou no meio dos anos 90. Mace Indu, ou melhor, Samuel L Jackson, fã de quadrinhos confesso e assíduo frequentador da Comic Con de San Diego,sempre o aponta como o marco zero da nova geração de adaptações. O filme é muito mais que uma simples história de vingança, é a própria atmosfera negra do nosso caos urbano capturado com energia, estilo e dor. É muito fiel às origens do personagem, mas consegue superar o original ao compor um canto de sofrimento que até hoje não encontrou similar. E, de quebra, permitiu ao direto Alex Proyas filmar Cidades das Sombras (outra obra Cult, plagiada descaradamente por certos irmãos W).

03. BLADE, O CAÇADOR DE VAMPIROS
Ok, o filme não é lá muita coisa, só uma produção modesta de um personagem obscuro (sem trocadilhos racistas) da Marvel, mas merece estar nesta lista por dois motivos. Primeiro: o fracasso de Batmam e Robin quase fez a indústria desistir de adaptar qualquer coisa. Foi o sucesso inesperado do caçador de sanguessugas,e de dois agentes de preto, que trouxe novo ânimo ao gênero e viabilizou filmes como X-men e Homen-aranha, produções que ha décadas estavam na zona fantasma dos estúdios. Segundo: gerou uma continuação superior (mas nem tanto) que ajudou Del Toro a se estabelecer no terreno de Hollywood
(e a nos garantir doces como Labirinto do Fauno e, claro, o aguardado The Hobbit).

02. SIN CITY
O que Robert Rodriguez não tem como talento, sobra em camaradagem. Seus amigos do peito topam qualquer parada, e por si só já valem o ingresso. Mas ele foi além e conseguiu convencer Frank Miller (afastado do cinema desde que Robocop II enferrujou suas pretensões) a adaptar sua obra-prima com a estética, ação e violência típica do autor de Elektra Vive. O que queremos mais? Há quem argumente, porém, que o filme é, na verdade, uma Transposição, levada ao pé da tinta, do material original e não a Adaptação de uma HQ à linguagem do cinema. Semânticas à parte, o filme inaugurou uma nova percepção sobre o termo fidelidade, elevando à estratosfera a pretensão iniciada em Dick Tracy e Batman, o Retorno. E, de troco, nos presenteou com uma tecnologia revolucionária (aplicada depois, com mais impacto, em 300 e The Spirit).

01. O CAVALEIRO DAS TREVAS.

Falar da 2ª maior bilheteria da história em um espaço tão pequeno é quase um crime. O filme é tão rico que prefiro deixar isso para outro momento. O importante aqui é reconhecer que estamos presenciando uma nova revolução. Não apenas tecnológica - apesar do Imax ser apontado por várias publicações de calibre, como o futuro da fotografia no cinema. Não, a mudança mais importante aqui, é dramática. Até agora, as adaptações se estabeleceram como gênero, garantiram o caviar de executivos e as pipocas dos nerds, mas ainda não haviam gerado seu Cidadão Kane, seu Poderoso Chefão – Um filme capaz de quebrar barreiras, alargar horizontes e galgar respeitabilidade diante de qualquer outro exemplar "sério" da sétima arte. Coube a Cris Nolan, um cineasta admirável, realizar esta façanha. Em Batman Begins ele já tinha surpreendido, ao criar um conto sinistro sobre o medo na sociedade e sua manipulação no coração dos homens. Mas em The Dark Knight, ele superou todos os clichês de um "filme de herói" – do título não comercial às interpretações viscerais, dos efeitos especiais às campanhas de divulgação, das cenas de ação ao cuidado na lapidação dos personagens. E como resultado, fomos presenteados com o mais perturbador debate sobre a maldade humana. Uma obra-prima.

O SEXTO DIA E A IDENTIDADE PESSOAL

A Globo exibiu, no último “Domingo Maior”, O Sexto Dia, tentativa pífia de se fazer um filme de ação que preste. Arnold interpreta (!) um piloto de helicóptero que acaba sendo clonado por engano e resolve lutar por sua vida e o bla, blá, blá de sempre. Como cinema, o filme é apenas trash (no mal sentido), mas como Ficção Cientifica, ele até permite um debate interessante: Qual é a verdadeira natureza de identidade? A Filosofia define identidade pessoal como “as condições sob as quais uma pessoa em um momento é a mesma pessoa em outro momento...”

O que faz você ser você e não outro? Sua constituição génetica? Sua aparência? Suas memórias?
Bem, tudo que existe em você: pele, sangue, genes e até a molecula de seu DNA é formada por elementos quimicos. Pelos mesmos elementos químicos que estavam aqui no dia da criação. Não há perda de matéria lembra? Portanto, os átomos que te formam já estavam, estão e estarão aqui. Dizer que você é as moléculas que te formam é afirmar que, basicamente, todos somos um corpo só, e, francamente, isto só era bem aceito nos anos 70.

Você também não pode ser apenas o que aparenta. Por quê? Imagine, por exemplo, o Presidente Lula e FHC. São duas pessoas diferentes sem dúvida, e não por causa da política econômica de seus governos. Pensamenos então em todas as óbvias diferenças físicas entre os dois: a barba, os noves dedos, o fato de um ainda ter esposa. Imagine agora que, por sorte, o avião do atual presidente caiu, Lula e FHC sofrem um acidente 06 vezes pior que o de Leornado de Caprio em O Aviador. Imagine que eles ficaram completamente desfigurados, perderam as pernas, os braços, os estomagos. Estão fisicamente idênticos, (apenas duas massas pretas jogadas em macas de hospital) sobrevivendo apenas por ajuda de santos e aparelhos. Eles deixaram de ser duas pessoas diferentes? É claro que não. Continuam feios, é verdade, mas ainda são duas pessoas diferentes.

Então, você é suas memórias? Bem, consideremos aqui memórias não apenas como sinônimo de lembranças, mas como sendo todo o conjunto de pensamentos, desejos, recordações que existem no nossa mente, ou seja nossa consciência. Sim, nós somos a nossa consciência. Podemos dizer que nossa memoria é a melhor maneira de nos definirmos, mesmo levando em consideração que nossa consciência muda com o passar do tempo. Neste caso mudamos, mas permanecemos os mesmos. Ninguém deixa de ser alguém se passar a apreciar, sei lá, Vitor e Leo (ou deixa?). Mudamos nossoa gostos, nossas vontades, nossa moral, mas não deixamos de nos reconhecer como a mesma pessoa por causa disso.

Porém aqui reside um dilema cruel. Se um clone seu possui suas memórias, seus desejos, suas lembranças mais íntimas, todos seus segredos (que você votou no Collor e tudo mais), tem suas fobias, suas aspirações. Podemos afirmar que o clone é você?

Sim podemos. Não vale argumentar dizendo: “eu sou eu por que vim primeiro que o clone” como você poderia ter certeza? Todos seus pensamentos são os mesmos lembra? E se não houvesse ninguém de fora pra poder dizer? Mas como ele pode ser eu, se eu sou eu? Bem, boa sorte...

16 fevereiro, 2009

FEVEREIROS

(“Alalá ôôôôô...! Alalá ôôôôô...!”)

Estamos em fevereiro, e como em todos os anos, os ânimos de [quase] todos estão a mil! Não se fala em outra coisa a não ser, CARNAVAL.

Pois é. Toda conversa, seja na escola, trabalho, bar, universidade, casa, igreja (isso mesmo, até nas igrejas!), gira em torno do carnaval. Lugar algum escapa desse assunto.

As perguntas mais freqüentes são: “Vai passar carnaval onde?”; “ E aí, onde vai ser o carnaval mais ‘irado’?”; “Ei ‘rapá’, carnaval na praia ou na serra?”.

E os comentários após o carnaval são praticamente os mesmos: “Bebi todas!”; “Fiquei com um monte de gatas (os)!”; “Bebi tanto que desmaiei!”; “Tive que tomar glicose na veia!”.

É que existe a idéia de que tudo é possível no carnaval. Tudo mesmo!!

Algumas pessoas “se oprimem” o ano todo só esperando ansiosamente pelo carnaval para “se libertar”. E como se libertam! Libertam seus instintos mais selvagens (e libidinosos!). Homem sai pelas ruas vestido de mulher, mulher anda seminua, as pessoas sentem-se a vontade em dormir nas ruas (ou fazer TODAS as suas necessidades nela!). Beber até cair é algo merecedor de troféu! Pessoas que geralmente mal abrem a boca para desejar um “bom dia” de tão tímidas que são, nesta época, se tornam em algumas situações as mais populares da festa, pois abraçam, beijam e sorriem para todo mundo.

E tudo que se faz, depois é justificado com a célebre frase: “Ah, é carnaval!”. Pronto, só isso já explica tudo.

Você pode me ignorar, afinal, a vida é sua e ninguém melhor do que você para saber o que lhe faz feliz, portanto, beba, fume, cheire, dance e namore em pé (mas não esqueça a camisinha!). Mas que tal se propor algo diferente neste carnaval?! Um retiro espiritual ou pelo menos segurar – um pouco – a onda.

Lembre-se, são quatro dias para se libertar, mas o resto do ano (ou da vida!) para se arrepender.

Um Feliz Carnaval!

12 fevereiro, 2009

Atormentado pelo dia

Acorda com uma indisposição, o relógio toca sem se preocupar de como ele está. Sonolento se levanta. Mecanicamente vai ao banheiro, sabe que a água fria é a fonte para sair do transe do sono. Por muitas vezes pensa em não querer acordar. O daí que o espera vale tudo isso. Não quero fugir do meu sonho, da minha ilusão perfeita diz ele.

A barulhenta cidade acorda, e ele não tem escolhas, viver no que já está decidido. Deve acordar! No banho, não a tempo a perder. Corra, corra! Se arrume! Em meio à arrumação mecanizada, que faz todo dia. Em meio a arrumação ainda acha tempo para pensar no bom que será se ele começar a tomar as decisões do mundo que o cerca.
Medo o atinge, a mudança é algo incerto. Para que mudar, ele sobrevive bem do jeito que está.

Atraso sempre. Na parada, sons o perseguem, conversas alheias, murmúrios, lamentações, até orações para um dia bom. O interior dele se perturba com tanta agitação.

Lá vem o trânsito, numa cidade sem descanso. Só construção a admirar e pensar no quão paradoxal é a vida, tentando fugir da inquietude do mundo. E ainda sim ele ouve as asneiras da cidade. Já se acostumou?! Os ouvidos adaptaram-se aos ruídos, mas o corpo ainda não a tanta intoxicação.

No trabalho, Oh não disse ele. Cinco minutos atrasado. Lá vem sermão do chefe, de como o minuto é importante e quão essencial você é a empresa. Ele é um “colaborador” e a empresa depende dele. Bronca, advertência tentando ser motivacional. O que quer dizer isso afinal.

Tenta focalizar no trabalho, esperando que assim passe mais rápido. Se a menos não contassem as horas e sim a força e meta alcançadas no dia. Isso sim seria motivacional.

Atrapalha-se a olhar as novas colaboradoras. Como em todo lugar, sempre existe alguém ou algo a nos atrapalhar. Ele olha o potencial de todas. Cuidado, ou outro sermão vai levar. Ele tenta espera a hora do almoço chegar, mas ele tem medo de arriscar. O dia pode ser pior se “queimar”. Por que é tão difícil tomar decisões?! Ou é o medo de mudar a vida que o atormenta.

Exaurido por este dia, alivia-se de acabar um dia de trabalho. Conversar com os colegas, ligar para amigos, vale tudo no final do dia. Para pelo menos salva-lo da desgraça da monotonia. Recusas são feitas. Alegações as mesmas. Tomadas pela canseira do dia.

O jeito é ele voltar para casa, mas uma vez atravessa a cidade no ônibus lotado. O ônibus transforma-se numa sauna. Hora de expelir o ar e ficar mais imprensado. E ainda ter que suportar o trânsito que já deixou de ser suportável.

Chegando a casa, só resta um jantar e um banho a tomar. Deita-se na cama, libertando-se das tormentas do dia e pondo a sonhar em um dia em outro lugar.